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domingo 3 maio 2026
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Fé e Razão – Aceitação de si mesmo: das limitações e fragilidades

Algo importante para uma vida satisfatória e equilibrada é a aceitação de si mesmo. A psicanálise nos ensina, que há dentre de todos nós, dois eus: o real – o que de fato somos – e o ideal , aquele que gostaríamos de ser e fingimos ser.
A incoerência se dá entre nosso discurso e nossa prática e também entre nossas convicções e emoções. Estas últimas costumam mostrar muito de nosso eu verdadeiro e, por essa e outras razões, fazemos o máximo para disfarça-las e encobri-las.

Mas o desgaste gerado por esse esforço resulta nocivo, tanto para nossa paz interior como para a saúde. É como se, permanentemente, se travasse uma guerra em nosso interior, entre o eu real e o ideal.
A aceitação de nós mesmos implica necessariamente o reconhecimento e aceitação de nossas limitações e fragilidades. Tendemos, todos nós, a esconder dos outros as fraquezas e a posar de fortes. Mas essa não é nossa realidade.

Cada um de nós cria, para uso externo, uma aparência de segurança e fortaleza, mostrando-se aos outros tanto mais arrogantes e superiores quanto mais fracos somos.
O curioso é que cada um sabe que sua própria segurança é falsa mas crê que a do outro seja verdadeira; sentindo o outro mais forte, sente-se ainda mais fraco e aguça com redobrado vigor suas defesas.
A plena aceitação de nossa fragilidade está vinculada à aceitação também dos reveses e das vicissitudes que a vida forçosamente nos impõe.

Há que ter resignação e conformação em face dos aspectos imponderáveis do viver e sobre os quais nosso esforço, vontade ou comportamento não podem influir.
Portanto gostar de nós e o reconhecimento de nossas limitações é fundamental para uma vida equilibrada, saudável, feliz, satisfatória. As fragilidades humanas exigem do ser humano um olhar lúcido e crítico. A fragilidade tem muitas dimensões. Existe uma fragilidade constitutiva e originária do humano.

Porém é preciso entender que a fragilidade pode estar no coração da humanização do ser humano, como nos lembra o psicanalista e pediatra britânico Donald Winnicott (1896-1971). A fragilidade deve ajudar a pessoa a compreender o sentido da sua própria humanidade. E descobrir que o ser humano não se reduz às suas fragilidades.

É necessário compreender que na fragilidade esconde-se valores importantes de delicadeza, sensibilidade, dignidade e de comunhão com o sofrimento de muitas pessoas. A fragilidade tem um sentido que precisa ser entendido. Existem fragilidades e feridas que estão no silêncio da alma humana, e que para serem escutadas exige-se atenção e sensibilidade. Cada pessoa deve dar-se conta das suas fragilidades, vulnerabilidades como algo que faz parte da própria humanidade. É se permitir descer às profundidades do próprio eu.

Prof. José Pereira da Silva