A fila do supermercado é um daqueles lugares em que o tempo parece andar descalço em um piso repleto de pedregulhos. Simplesmente não anda, não passa.
Você tem a infeliz ideia de comprar pão e entra no supermercado somente para isso, mas quem consegue entrar para comprar pão e ficar somente neles?
Aquela velha mania de andar pelos corredores e a cesta, na verdade o carrinho, vai se enchendo de itens que não estavam na sua lista. Como que por encanto, coisas que você nem precisa vão pulando para dentro do seu carrinho. Como se estivesse absorto, desorientado ou anestesiado, você o vê se enchendo e não reage, simplesmente não consegue oferecer resistência.
Bom, chega de andar à toa e vamos para a parte pior, o caixa. Depois de observar criteriosamente caixa por caixa você se decide por aquele que parece ter menos gente, vamos lá, se encher de paciência e tentar a sorte, mas você esqueceu de analisar a quantidade de itens de cada pessoa à sua frente e, também, não observou o perfil de cada um. Erro terrível.
Na sua frente uma senhorinha analisa cada produto que escolheu, talvez ela esteja pensando que se trate de peças raras de um museu.
Você consegue dar um passo à frente e a fila para de novo. Você pega o celular e olha as mensagens recebidas, responde algumas, mas a fila continua no mesmo lugar. Olha o e-mail, responde alguns e nada da fila andar. Irritado, com uma pressa que nem é tão necessária assim, olha para a frente e ainda é aquele mesmo senhor de quatro horas e meia atrás. Parece que houve algum problema, está reclamando do preço de alguma mercadoria, alega que na prateleira o preço estava menor. E a senhora na sua frente continua analisando as mercadorias. Para passar o tempo, você dá uma olhada em alguns vídeos de uma rede social, se cansa e vai para a outra e, para a sua surpresa, a fila anda. Aquele senhor, finalmente, terminou de passar as compras e está indo embora.
Agora, um casal que aparentemente discute porque a mulher está levando muitas coisas.
E, você ali, participando de todo aquele teatro da vida percebendo que está fazendo parte, sem querer, de uma engrenagem. Você faz parte da fila e do cotidiano do supermercado.
Alguém, atrás de você, toca seu ombro. Você vira para ver do que se trata e um homem de meia idade começa, inicialmente, a reclamar da demora da fila e sem que você perceba como, de repente, ele está lhe contando problemas pessoais.
Interessante como desconhecidos compartilham intimidades que não lhe dizem respeito. Bom, pelo menos, o casal terminou de passar suas compras, vai embora e a fila anda mais um pouquinho, seriam centímetros?
Agora uma mãe e seu filho adolescente, depois a senhora com as peças de museu e, em seguida, finalmente, você. No caixa ao lado, para variar, uma criança de uns cinco ou seis anos começa a chorar fazendo birra, sua mãe não que levar quatro chocolates para casa, disse que três está bom. Você olha a cena e se lembra de sua infância, trinta – quarenta anos atrás, no que sua mãe faria em uma situação daquela. Apesar da demora da fila e da irritação, não consegue evitar um riso irônico e até esquece um pouco no quanto gostaria de pegar aquela criança e ensinar o que é educação e limites.
A fila andou, agora é a senhora e haja paciência para esperar ela analisar todas as mercadorias novamente. Mais um pouco de rede social e duas horas e meia depois, a senhora sai do caixa, é a sua vez e impossível segurar um suspiro de alívio por sair daquela fila interminável e insuportável. Você tenta ser o mais rápido possível, mas a caixa não é tanto. E, para piorar, ainda tem que abrir as malditas sacolinhas para guardar suas mercadorias. Passa o cartão, está tudo certo, coloca os saquinhos no carrinho e se encaminha para o estacionamento. Entra no carro, dá partida e sai. Alguns minutos depois, se dá conta de que esqueceu de pegar os pães.






















