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domingo 23 julho 2017
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Fé e Razão

24/06/2017

O medo de conviver

Temos de aprender a conviver com o medo. O potencial de dano que a sua amplificação traz à nossa convivência, de resto, temo-lo testemunhado na sua concreta fisicidade. Permanece o fato de, se não queremos limitar a nossa reação ao exercício paliativo de alguns rituais consolatórios ou à retórica belicosa de qualquer solução final, haver um medo mais profundo que devemos perseguir, expor e conduzir ao centro do raciocínio.
Esse medo é o medo de conviver. A determinação de conviver com o medo, por si só, torna-se também num hábito. E em supressão. Em determinado momento deixaremos de procurar compreender: limitar-nos-emos a agir por impulso, exprimiremos o nosso desdém, atacaremos às cegas, fechar-nos-emos cada vez mais sobre nós próprios.
Nós tentaremos compreender a fundo o que nos surge, quase incompreensível no momento, até chegar ao ponto em que as rotas do ódio e do medo se cruzam e se enrodilham uma na outra.
Pensamos muito até agora: a pobreza, a exclusão, o fanatismo político, o fundamentalismo religioso. Todas as explicações tem a sua sacrossanta parte de verdade. Mas amanhã continua demasiado curto em todos os casos.
E depois são explicações que nos deixam demasiadamente fora do jogo: não dizem quase nada sobre o que podemos e devemos fazer para desarmar o circulo vicioso e mortífero do medo e do ódio. O medo de conviver é contagioso, como o ódio daqueles que não se suportam.
O medo de conviver abre veredas ao ceticismo: o ceticismo alimenta em espírito de renúncia, que depois exorciza a crescente indiferença pelas práticas reais de convivência, entregando-a inteiramente à burocracia das regras e regrazinhas politicamente corretas.
A indiferença cria distância e abandono: e paga-se, com os interesses, em termos de ruptura e ressentimento. Os odiadores profissionais estão sempre prontos a aproveitar-se dela a cada encruzilhada da história: o medo não é só um efeito do ódio, é também um terreno fértil para o seu crescimento. Por isso podemos fazer mais do que conviver com o medo.
Podemos adentrarmo-nos mais corajosamente e com mais amor em todos os territórios do nosso habitat civil e religioso em que o medo da convivência com o seu cortejo de ceticismo preconceituoso e potencial ressentimento, se fecha sobre si mesmo. Tornando-se desse modo terreno fértil para a agressividade e o gesto delirante.
Não mais aceitemos comunidades, civis e religiosas , murada na sua inviolável impenetrabilidade à reciprocidade discursiva, à freqüência familiar, à cooperação solidária. Todos os povos, indistintamente, são feitos de homens, mulheres e crianças. Esta condição, com o seu desfile de vulnerabilidade e de esperanças, é infinitamente mais decisivo do que qualquer outro identificado: cultural, político, religioso. O modo de conviver deve ser atacado com determinação e, vencido em todos os campos, desde o berço.
Debaixo da linha de flutuação de retóricas repetitivas e de políticas inertes, um número de homens e mulheres corajosos navega já de mil maneiras nesse mar, tirando água, conjuntamente, ao medo e ao ódio. Não são eles que tem de aprender as fórmulas da política, mas a política que tem de substituir a burocracia pela lógica deles. Pode-se fazer-se mais do que conviver com o medo.

Por José Pereira da Silva