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sábado 23 setembro 2017
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Coluna de Cinema

23/09/2017

Mãe!

Esse não é um filme para todos. E essa é frase que mais se encontra quando o assunto é o novo filme de Darren Aronofsky, diretor conhecido por obras cujos significados nem sempre são fáceis de se encontrar. Dessa vez o cineasta atinge o máximo exagero do seu estilo e constrói, sob uma ótica absolutamente particular, uma história que não é nada daquilo que vemos.

Para começo de conversa, é muito importante dizer que Mãe! talvez tenha o pior marketing do cinema dos últimos anos. O trailer vende um terror um tanto genérico em que uma família formada por marido e mulher passam a receber pessoas estranhas em sua casa isolada no campo. Essa propaganda enganosa afasta, e muito, o público da trama e, provavelmente, não vai agradar em nada aos que forem assistir ao filme com o intuito de bons sustos.

Desde o primeiro momento, Mãe! remete ao estranho. Os planos fechados no rosto da atriz Jennifer Lawrence, as câmeras em constante movimento, por vezes trepidantes, por outras girando dentro do ambiente e a ausência de trilha sonora contrastante com os efeitos de som em destaque são alguns fatores que tornam difícil a apreciação. A direção de Aronofsky, já marcada por certo desconforto como visto em Cisne Negro (2010), é propositalmente carregada de significado até na ausência de nomes dos personagens. Uma obra, aliás, em que a simbologia se espalha pela totalidade da projeção não poderia contar com uma direção apática para funcionar. Tecnicamente o filme não peca em nada, entregando uma carga dramática pesadíssima, cenas brutais e atuações ótimas, mesmo com a ingrata passividade excessiva da personagem de Lawrence no início, passando pela irritante negligência de seu marido, vivido, com muita presença, por Javier Bardem. Coadjuvantes como Ed Harris e Michelle Pfeiffer completam o elenco com atuações competentes.

Mãe!, além de ser difícil de ser assistido, é difícil de ser comentado. Qualquer influência externa pode estragar a experiência proposta pelo longa. Experiência esta que, certamente, foi moldada para ser vista no cinema, uma vez que utiliza do som ambiente das cenas para causar ainda mais sensação de imersão, fazendo as vozes e barulhos caminharem de um lado para o outro da sala de acordo com os passos da personagem principal, tornando-a nossos olhos e ouvidos na história.

No fim das contas, Mãe! não é, absolutamente, um filme para todos, sobretudo por sua incrível capacidade de interpretações distintas que o levarão a discussões por muito tempo. Apesar de ser genial em seu texto metafórico, é um filme de extrema dificuldade de absorção, impactante e complexo. Nada do que é visto em tela é o real propósito do pretensioso projeto de Aronofsky que além de enganar o público que procura por terror, ainda vai deixar muita raiva e insatisfação naqueles que não estiverem acostumados a usar o cérebro no cinema ou não conseguirem enxergar o real significado por trás da simbologia do diretor nesse clássico cult instantâneo.

Por Giuseppe Turchetti