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sexta-feira 19 Janeiro 2018
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Bom Dia, Taubaté: Ubatuba, aquele abraço!

A primeira vez que fui para Ubatuba, aos quatro anos de idade, vivi momentos que marcaram a minha memória, minha existência, gerando uma fotografia do meu jeito de ser.
Papai tinha um fordinho 29, preto como um gato que vivia nos telhados da rua do Sacramento. Mamãe arrumou todas as coisas necessárias para passarmos 15 dias, olhando e ouvindo as vozes do mar. Saímos às seis horas da manhã, na escuridão definida pelo tempo.
A estrada para Ubatuba era de terra, de chão batido, de chão revirado pelo movimento de carros, engravidado por buracos e pequenas elevações que, se o motorista não os conhecesse, se perdia com muita facilidade. A estrada era na verdade um caminho, com a cara de uma grande corda estendida diante dos olhos do viajante.
O nosso carro seguia o seu destino cheio de encantamentos. Pelo caminho havia conduções atoladas, quebradas, cobertas por fumaceiras saídas de bocas marcadas pela quentura da água. A jardineira do Procópio, uma espécie de ônibus da época, passou por nós, dando uma leve buzinada. Essa jardineira pertencia à empresa de João Roman, em seu início de carreira. Procópio era uma mistura de motorista, pai, amigo. Ajudava um passageiro aqui; socorria outro ali; parava para os necessitados e, assim, domava a viagem de quatro horas.
Em 1938, ano que fiz essa viagem, a cidade de Ubatuba, fundada por Jordão Homem da Costa, não tinha luz à noite. As pessoas caminhavam pelas ruas usando lanternas; as velas iluminavam as casas e a poesia estava presente em todos os lugares, percebida pelos vaga-lumes e pelos poetas de plantão.
As geladeiras funcionavam com barras de gelo, colocadas na parte de cima do aparelho. Na entrada da cidade havia uma fábrica de gelo movida por um gerador que, em sua sede, bebia litros e litros de óleo diesel, e tudo era uma grande festa. A Colônia de Férias da CTI e da Companhia Prediam davam de presente a Ubatuba muita alegria e muita movimentação. Na Colônia de Férias da CTI havia um salão de baile. Papai e mamãe dançavam todos os finais de semana; eu ouvia a música, observava os casais, ouvia ou percebia, as juras de amor, tomando refresco e movimentando os pés e o coração.
As praias do Tenório, das Toninhas e a Praia Grande, não eram frequentadas; todos os visitantes e turistas iam ao Perequê, atravessando o riacho sobre duas vigas de madeira. Na praia, prenúncio do mar azul, todos os sonhos eram realizados. As conversas, o sol, os banhos de mar, os castelos de areia feitos com arte e fantasia. As mulheres com seus maiôs até os joelhos ocupavam os quiosques; os homens com seus calchões de banho, gesticulando para reforçar a altura da voz. E a criançada correndo, brincando, nadando, mergulhando sob os olhares atentos dos pais.
No último dia de nossas férias, mamãe resolveu comprar doce de banana, na casa da doceira Chica da Silva. Doceira famosa além das ondas do mar. A casa era simples, limpa e bem arrumada. Na sala havia várias pessoas, clientes de longa data; entre eles, o escritor Monteiro Lobato, que conhecia meu pai. Os dois se abraçaram, sorriram, falaram da estrada e das belezas das praias. No final, Monteiro disse a papai: – “Eu compro doces para a Emília. Ela divide com o Quindim, Visconde, Saci… não há doce que chegue”.
Na volta, no vai e vem da estrada, os meus pensamentos estavam em Emília e na distribuição de doces. Não sei porque, mas os meus olhos se umediceram; descobri o mundo encantado que nascera na cabeça e no coração de um homem baixinho e pestanudo, que amava Ubatuba, Caraguá, São Sebastião… Para Monteiro Lobato, o Litoral Norte torna-se-ia um dia, o paraíso do povo do Vale do Paraíba.

 

Por Raphael De Angelis

17/10/2017