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quarta-feira 13 dezembro 2017
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Peixe-boi é devolvido à natureza em Alagoas

Após um período de adaptação de aproximadamente cinco meses na base do Instituto Chico Mendes em Porto de Pedras (AL), Diogo foi finalmente devolvido à natureza. O peixe-boi marinho de seis anos, 314 kg e 2,5 metros deixou seus companheiros de cativeiro, Ive e Raimundo, e ganhou as águas do rio Tatuamunha, localizado no interior da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais – unidade de conservação administrada pelo ICMBio entre os litorais de Pernambuco e Alagoas.
A reintrodução de Diogo aconteceu no dia 29 de março e contou com a presença de 12 jornalistas de diversas partes do país. Essa atividade faz parte das ações do Programa Peixe-Boi, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (Cepene/ICMBio), com apoio da Fundação Toyota do Brasil e da organização não-governamental SOS Mata Atlântica.
Resgatado após encalhe na praia de Diogo Lopes, no Rio Grande do Norte, o animal passou por uma fase de reabilitação nas piscinas do Programa Peixe-Boi, na Ilha de Itamaracá (PE). Cinco meses atrás, foi transferido para um cativeiro de 1000 m² em ambiente natural, já na APA Costa dos Corais. Depois de cumprir um protocolo que envolve peso mínimo e realização de exames, Diogo foi considerado apto para voltar à natureza. Sob o comando da veterinária Fernanda Attademo, cerca de 30 pessoas atuaram na equipe de soltura do peixe-boi, que primeiro precisou ser retirado da água para colocação do equipamento de GPS e, na sequência, foi conduzido para fora do cativeiro. O aparelho de localização por satélite ajuda a entender os deslocamentos do animal e o uso do habitat, auxiliando o monitoramento pós-soltura, mais intenso nos primeiros três meses. De acordo com a veterinária, esse acompanhamento permite gerar dados que subsidiam a indicação das áreas consideradas importantes para a conservação do peixe-boi.
“As pessoas envolvidas nesse trabalho estão contribuindo para definir o futuro de uma espécie”, ressalta Fernanda. Para o chefe da APA Costa dos Corais, Iran Normande, a sensação é de dever cumprido: “Uma etapa longa foi superada. O momento da devolução do animal à natureza é muito simbólico e nos inspira a continuar trabalhando”. Segundo Iran, esta é a 44ª soltura desde 1994 e a segunda este ano. “Lua, a primeira peixe-boi a ser reintroduzida, está hoje com 25 anos, bem de saúde e reproduzindo”, comemora. O objetivo dessas reintroduções, ainda de acordo com o chefe da APA, é reconectar as populações do animal que atualmente encontram-se isoladas, aumentando o número de indivíduos e ampliando a variabilidade genética da espécie.

Treinamento

O ICMBio aproveitou o dia da devolução de Diogo para realizar um treinamento com a equipe da Reserva Extrativista (Resex) Marinha de Cururupu – unidade de conservação localizada no estado do Maranhão – sobre manejo, soltura e acompanhamento do peixe-boi.
O objetivo é iniciar o monitoramento participativo na reserva para avaliar a população da espécie em território maranhense, ainda bastante desconhecida. “Isso permitirá uma conexão entre as ações do ICMBio relacionadas ao peixe-boi nas diversas áreas de ocorrência e entre as unidades que trabalham com a espécie”, pontua Laura Reis, coordenadora de Pesquisa e Monitoramento da Resex de Cururupu.

Sobre a espécie

Animal dócil e de hábitos solitários, o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) é um mamífero herbívoro que se alimenta de capim-agulha e folhas do mangue, ingerindo de 8% a 13% do seu peso diariamente. O animal pode atingir 600 kg e medir até 4 metros. De acordo com especialistas, costuma levar de 3 a 4 minutos submerso entre cada respiração, podendo, em situações extremas, ficar até 20 minutos embaixo d’água.
O peixe-boi teve sua população reduzida sobretudo devido à caça. “A espécie não tem predador natural. Seu único predador é o homem”, explica Iran Normande. Hoje, o principal problema já não é mais a caça, e sim a perda de habitat, pois muitos manguezais vêm sendo usados para criação de camarões em cativeiro. Sua baixa taxa reprodutiva também dificulta o repovoamento: a espécie atinge a maturidade sexual somente aos seis anos de idade (pode viver até os 60), a gestação dura 13 meses e o filhote é amamentado ao longo dos primeiros dois anos de vida.
As ações do Programa Peixe-Boi vêm contribuindo para melhorar esse quadro: na última Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, divulgada em 2014, o peixe-boi deixou a categoria “Criticamente em Perigo” e passou a ser apontado como “Em Perigo”. A estimativa populacional também deu um salto, de 500 para 1000 indivíduos. Além disso, a quantidade de filhotes que tem sido avistada nos últimos anos é mais um importante indicativo de que os peixes-bois estão reproduzindo e aumentando sua população.
A partir do trabalho de sensibilização dos moradores da APA Costa dos Corais para a conservação do peixe-boi, houve o fomento ao turismo de observação da espécie, que se tornou um ativo econômico da região. Segundo informações da Associação Peixe-Boi, responsável pelo turismo de base comunitária no município alagoano de Porto de Pedras, a atividade gera empregos diretos e melhoria na renda para cerca de 70 famílias, sem contar os ganhos indiretos, a exemplo do artesanato relacionado ao peixe-boi.
A associação organiza passeios de jangada pelo rio Tatuamunha, onde diariamente até 70 visitantes podem observar os animais em seu ambiente natural. “A maioria não tem conhecimento prévio sobre a espécie e, muitas vezes, nem sabem que existe um animal como esse no Brasil. As pessoas saem do passeio encantadas com o que viram”, destaca Flávia Rêgo, presidente da Associação Peixe-Boi.