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segunda-feira 27 abril 2026
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“Crônicas e Contos do Escritor” – Linha do fim do mundo

Ouço o barulho das ondas que em pequenos intervalos quebram, raivosas, na areia.
Ouço o barulho constante da chuva fina que cai molhando sentimentos loucos, misturados.
Ouço o som acelerado e ritmado de meu coração que bate na cadência de uma música insana.
Uma brisa leve, fria e preguiçosa vem lamber meu corpo.
O cinza no céu, nas nuvens, no mar. O desconhecido. Sonho, pesadelo, realidade?
A linha reta, imóvel e misteriosa do encontro entre céu e mar e, em minha loucura, me pergunto se o mundo acaba ali?

Meus pensamentos desatinados imaginam como seria essa linha? Como seria esse final?
Desejos insanos querem conhecer a tênue linha que divide o infinito céu do misterioso oceano. Desejos apocalípticos querem ver a linha do fim do mundo.

Olho o céu cinzento e nem gaivotas se arriscam a voar sob a chuva fina e fria, mas o pensamento voa longe, desafia o mistério, desafia distâncias, ultrapassa espaços intransponíveis e transcende o tempo.

Fecho os olhos e em pensamentos insanos, voo alto e longe, minhas longas asas brancas, impermeáveis e imaginárias, batem em um doce, suave e previsível movimento.

Ultrapasso as nuvens cinzas e atinjo alturas, coloco as asas junto ao corpo, diminuindo a resistência ao ar, e, tal qual uma águia-pescadora, mergulho em uma descida ensandecida por longos minutos, então, nivelo o corpo a dez centímetros da água e permaneço assim, pairando em paz, flutuando, esquecido do mundo, voando, por dezenas, centenas de metros, sentindo o cheiro da água salgada e, de vez em quando, raspando em sua superfície. Empino a cabeça, volto a bater as asas, subo e vou até a linha imaginária e insana do fim do mundo, mas ela foi mais esperta e está mais à frente. Vou até lá e ela, mais uma vez mais rápida que eu, está à frente, bem à frente. Como aconteceu?
Não desisto, nunca desisto, e sigo em frente, na busca desenfreada pela linha do horizonte.

Assim vou, em meu desatino imaginário, voando até a linha do horizonte e ela se afastando, se afastando, se afastando…
E cansado, exausto, perdendo as forças, meus pensamentos desfazem minhas asas e, como no louco e fatal voo de Ícaro, derretem e caio no oceano frio, cinzento, perigoso e me perco, me afogando, em um turbilhão de pensamentos e sentimentos.
Sim, é isso. Me perco em minha louca busca pela linha do fim do mundo.

Abro os olhos, a brisa fria continua, a chuva fina persiste, o céu cinzento continua ali, as ondas ainda batem na areia da praia e meu olhar segue para a linha do horizonte, que continua ali e até parece mais perto agora, com um barco talvez a alcance. É algo a se pensar.

Quem sabe um desvairado e imaginário barco a vela singre o mar e chegue até ela, não custa tentar. Fecho os olhos, me concentro e lá está o pequeno barco deslizando pela água, logo começa a luta contra as grandes ondas, o comandante sorri, não serão páreo para o pequeno e corajoso barco. Em minha loucura, como em um flash, vejo a linha cada vez mais longe e agora a insanidade produz uma onda gigante que engole o pequeno barco.
Provocada por uma teimosa saliva que insiste em fazer cócegas na garganta, a tosse vem com tudo como um náufrago caído do pequeno barco. No meio do caos, ondas me cobrem a cabeça, água entra pelos pulmões, afundo, volto, tento respirar e no meio de lágrimas (ou seria água do mar?), vejo a linha do horizonte cada vez mais longe. Seria a brisa fria e a chuva fina que a estavam levando para longe?

No meio do desespero, a certeza do afogamento e, lá do alto, ouço um ronco, é um pequeno avião e logo imagino que com ele conseguiria chegar facilmente até a linha do horizonte. Sorrio, abro os olhos, saio do mar turbulento, me vejo novamente na praia e já me imagino voando no pequeno avião em busca da inquieta linha do horizonte. Mas ela continua fugindo, mas seguirei minha busca à linha do fim do mundo.