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domingo 26 abril 2026
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“Crônicas e Contos do Escritor” – A lenda do Lobisomem

Vamos de conto de terror???
A chuva fina parou, veio o vento gelado e levou as nuvens embora. A lua apareceu e vieram o medo e a insegurança. Ele sempre duvidou da lenda, aquele povo sem cultura vivia subjugado pelo medo, era prisioneiro de sua própria ignorância. Tinham medo da lenda do lobisomem e ele ria até as gargalhadas das histórias que o povo contava a respeito de aparições da besta. Em noites de lua cheia ninguém saía às ruas por medo de uma lenda e ele não se conformava com tamanha estupidez. Era comum ouvir uivos muito altos que diziam ser do lobisomem, mas para ele, alguém estava sacaneando a todos ou, no máximo, seriam lobos que viviam na enorme mata em volta, apesar de nunca terem visto lobo nas redondezas. Agora, sob a lua cheia, queria desmascarar o falso lobisomem. Se fosse alguém fingindo para aterrorizar, o denunciaria e se fosse um lobo, o mataria e mostraria o corpo provando que o terror era somente lenda. Pegou a espingarda, conferiu as munições, e saiu sob os protestos dos pais. Ouviu o pai dizendo que era perigoso duvidar da lenda. Apenas sorriu e saiu com o carro. Dirigiu pela zona rural por quase uma hora e nada viu, mas escutou uivos ao longe e foi em direção aos sons, mas nada encontrou. Já quase desistindo, viu uma sombra próxima à uma árvore à beira da estrada. Parou o carro e desceu, deixando os faróis ligados. Com a espingarda engatilhada, caminhou lentamente na direção da árvore. O coração batia descompassado e, de alguma forma, com certa alegria. Acabaria de vez com a lenda idiota do lobisomem. Chegou próximo à arvore e começou a contornar, pé ante pé, a espingarda apontada, o dedo no gatilho pronto para disparar, e os olhos fixos naquele ponto. Deu a volta e nada encontrou. Decepcionado, já pensava em voltar quando ouviu barulho no mato próximo, olhou para lá e entrou no mato. Dois metros depois uma estranha sensação começou a invadi-lo e pela primeira vez sentiu medo. Silêncio, quase podia ouvir o coração batendo. Então, mais uma vez, escutou algo. Caminhou mais um metro e parou. Uma insana ideia passou por sua cabeça. E se a intenção fosse afasta-lo do carro?

Hesitou, olhou na direção do carro, mas seguiu em frente. Era hora de acabar com a besteira daquela lenda e continuou adentrando no mato até que um uivo, muito próximo a ele, congelou seu sangue. Procurou a origem e tentou se convencer que se tratava apenas de um lobo ou alguém tentando assusta-lo, mas teve que reconhecer que esse alguém estava conseguindo. Sentiu a atmosfera pesada, a luz da lua cheia mal penetrava no mato e se sentiu desprotegido. Mesmo sendo somente um lobo, estava correndo risco porque mal conseguia enxergar. Outro uivo, mais perto que o anterior, e, de repente, um cheiro podre atingiu seu nariz. Era cheiro de enxofre, parecia vir das profundezas do inferno e se apavorou. Não conseguia enxergar e arrepios na espinha lhe indicavam que algo muito maléfico estava ali e agora estava apavorado. Começou a correr, escutava rosnados e passos atrás dele, estava em pânico, escorregou no chão molhado e a espingarda caiu. Desesperado, tateava no escuro tentando encontrar. Ouvia a respiração ofegante se aproximando, agora lentamente.

Desistiu de pegar a espingarda, se levantou e patinando no barro recomeçou a correr. A “coisa” que estava por perto correu também e achou que ela estava brincando com seu desespero. Tentava correr o mais rápido que podia, mas de repente sentiu um frio enorme e gritou quando algo passou correndo por ele e resvalou em seu braço.
Gritou alucinado. O que estivera atrás, agora estava a sua frente, entre ele e o carro. Mais um uivo, terrível, assustador, infernal e começou a chorar e a implorar para que não lhe fizesse mal, estava em pânico e arrependido de ter duvidado da lenda.

Agora não corria, apenas caminhava, tremendo. Viu a claridade dos faróis e, entre lágrimas, suspirou aliviado. Estava perto do carro, alguns metros dele. Saiu para a estrada e, no meio do pavor, esboçou um quase sorriso para a claridade dos faróis e caminhou em direção à elas e quando estava a dois metros do carro, a fera apareceu.

Ela se mostrou e ele imaginou que aquilo deveria ter saído do inferno. O lobisomem tinha dois metros e meio de altura, todo peludo, braços longos, orelhas enormes e pontudas e, para piorar, havia garras nos lugares das unhas. Presas enormes se projetavam da bocarra. Havia uma atmosfera gelada que emanava da besta e o cheiro de enxofre era insuportável, ela estava babando, ansiando por sangue e carne humana e olhava com fome para ele.

Foi tudo muito rápido e mal teve tempo de se lembrar das palavras que o pai lhe dissera quando estava saindo de casa.