A audiência pública começou com quase uma hora de atraso. O abandono da Igreja do Rosário, entretanto, começou pontualmente há mais de quinze anos. Convocada pelos vereadores Talita Barbosa e Isaac do Carmo, a reunião do dia 14 de agosto pretendia encontrar caminhos para impedir que a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos venha a desabar. Os dois vereadores fizeram o que estava ao alcance de seus mandatos: abriram as portas da Câmara, colocaram o problema diante da cidade e chamaram autoridades e sociedade civil para o debate. Eles acenderam a luz. O problema é que apareceu muita gente querendo discutir a lâmpada enquanto a casa continua caindo.
Construída entre os séculos XVIII e XIX, com paredes de taipa de pilão que ultrapassam um metro de espessura, a Igreja do Rosário foi tombada em 1995 e está interditada desde 2010. Já recebeu projetos, vistorias, reparos emergenciais, ofícios, notificações, estudos e promessas. Papel nunca faltou. O que continua faltando é a igreja restaurada. Na Bíblia, o profeta Ageu pergunta: “É tempo de vocês morarem em casas luxuosas, enquanto esta casa continua em ruínas?” A pergunta foi feita há milhares de anos, mas parece ter chegado com endereço certo a Taubaté. Talvez tenha sido protocolada no setor errado, porque até hoje ninguém respondeu.
O representante da Mitra começou estabelecendo o protocolo. Para falar com ele, seria necessário marcar audiência com antecedência. Avisou também que estava disposto ao diálogo, mas que, se viessem discursos “eivados de ódio”, a mesa ficaria vazia. A mesa até poderia ficar vazia. A igreja já está. Ninguém defende o ódio. Mas é preciso tomar cuidado para não chamar de ódio aquilo que é apenas indignação. Cobrar responsabilidade não é discurso de ódio. Lembrar quinze anos de abandono não é agressão. Perguntar por que o bispo não recebeu os preservacionistas não é falta de respeito. Às vezes, quem passou muito tempo sem ouvir acha que qualquer voz mais firme é gritaria.
O padre afirmou que a Igreja Católica vive de dízimos, doações e esmolas e que a Mitra não possui recursos para bancar a restauração. É compreensível que uma obra desse tamanho custe caro. Fé pode mover montanhas, mas empreiteiro ainda não aceita oração como PIX. Entretanto, quem não tem dinheiro precisa apresentar um plano.
Quem não tem plano acaba apresentando desculpas. A falta de recursos explica dificuldades. Não explica quinze anos de silêncio. Os discursos foram se revezando e, para quem é bom entendedor, surgiram os “infiltrados”. Não falo de agentes secretos, pessoas plantadas ou gente escondida atrás das cortinas. Eram os infiltrados do conformismo. Aqueles que entram numa discussão sobre responsabilidades para distribuir elogios, transformar urgência em cerimônia e trocar cobrança por reverência. Não precisam impedir a reunião. Basta esvaziar sua finalidade.
Contam que, certa vez, uma pequena capela começou a apresentar goteiras. Os moradores procuraram os responsáveis, que imediatamente criaram uma comissão para escolher o melhor balde. Discutiram o tamanho, a cor, o material e o local onde deveria ser colocado. Quando finalmente aprovaram o modelo, o telhado já havia caído. Mesmo assim, inauguraram o balde com fotografia e discurso. A audiência lembrou um pouco essa parábola.
O Conselho Municipal do Patrimônio falou de ofícios, notificações e procedimentos. Tudo muito correto. Enquanto o Conselho envia papel, a igreja perde reboco. A burocracia ganha carimbo e a taipa perde resistência. A Defensoria Pública informou que pediu esclarecimentos. É importante que tenha feito isso, mas pedir informações é o que a sociedade civil vem fazendo há mais de uma década. O poder público municipal enviou representação, mas não apresentou contribuição capaz de mudar o rumo da conversa. Representante que nada representa é apenas uma cadeira de miragem.
Apesar da meritória iniciativa de Talita Barbosa e Isaac do Carmo, predominou em muitas manifestações certo ar de entreguismo, conformismo e até ironia diante de uma luta legítima. Os preservacionistas compareceram. A sociedade civil insistiu. Os vereadores tentaram. Mas parecia que alguns estavam mais preocupados em não desagradar às autoridades do que em salvar a igreja.
O Velhinho de Taubaté estava lá, mas não se inscreveu para falar. Não foi por medo, falta de opinião ou ausência de palavras. O Velhinho apenas percebeu que fazer mais um discurso seria como pendurar um quadro bonito numa parede que está prestes a cair. Sua fala poderia servir somente para aumentar a lista de participantes e permitir que depois dissessem que “todos foram ouvidos”. Ouvir não é deixar alguém falar durante cinco minutos. Ouvir é responder. Ouvir é assumir responsabilidades.
Ouvir é tomar providências. Diante daquele cenário, o silêncio do Velhinho foi sua forma de protesto. Às vezes, não falar é a única maneira de não emprestar a própria voz para decorar a hipocrisia.
A Igreja do Rosário não precisa de outra solenidade para informar que está caindo. Suas paredes já fizeram o relatório. As infiltrações já emitiram parecer. O telhado já protocolou o pedido de socorro. O tempo, esse funcionário que nunca falta ao serviço, continua trabalhando diariamente pela destruição do patrimônio. Se nada for feito, um dia a igreja poderá desabar. Então aparecerão discursos emocionados, homenagens, fotografias antigas e promessas de reconstrução. Talvez até convoquem outra audiência pública. E ninguém assumirá a culpa. Porque, em Taubaté, até a omissão costuma comparecer acompanhada de um representante.
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por Mário Jéfferson Leite Melo














