Crônica sobre Nietzsche, a alma e o espelho do contemporâneo
Há fotografias que doem. Esta, de 1899, mostra Friedrich Nietzsche em um asilo, a barba longa e branca como a neve dos Alpes que ele tanto amava, os olhos já não os mesmos que incendiaram a filosofia do século XIX. Dez anos haviam se passado desde aquele 3 de janeiro de 1889, em Turim, quando o pensador que desafiou Deus, a moral e a própria razão sucumbiu diante de algo que nenhum conceito poderia alcançar: o sofrimento nu de um cavalo sendo espancado.
A cena, que os historiadores tratam com a cautela de quem manipula vidros antigos, adquiriu contornos de mito. Nietzsche teria corrido em direção ao animal, abraçado seu pescoço, beijado sua testa e chorado — chorado como quem reconhece, naquele instante, que toda a filosofia do mundo não vale o olhar de uma criatura que não pode falar, mas que sente. E então, o desabamento. Não apenas físico. Ontológico.
O que vemos hoje, ao contemplar essa imagem do velho Nietzsche, é menos um homem do que um espelho. Nele se reflete nossa própria condição contemporânea: almas fragmentadas que vagam entre o mito que construímos para nos salvar e a realidade cotidiana que insiste em nos mostrar o abismo.
Pois o que é a alma moderna senão este cavalo espancado? Não temos mais cocheiros visíveis — agora os golpes são invisíveis, vindos de algoritmos que nos manipulam, de jornadas de trabalho que nos esgotam, de notícias que nos entorpecem. Somos todos, de alguma forma, aquele animal indefeso diante de forças que não compreendemos. E Nietzsche, o profeta do Super-homem, nos ensina algo que seus livros talvez não contivessem: que a grandeza não está em nunca cair, mas em reconhecer, no momento da queda, que ainda somos capazes de compaixão.
As “cartas da loucura” que ele escreveu nos dias seguintes — assinadas ora como Dionísio, ora como O Crucificado — são documentos perturbadores. O filósofo que proclamou a morte de Deus agora se identificava com o próprio Cristo. O pensador que exaltou a vontade de potência agora assinava como o deus do vinho, do êxtase e do despedaçamento. Não há contradição aqui, mas uma verdade mais profunda: no fim, toda filosofia é um disfarce para a alma que chora.
Eis o que a fotografia de 1899 nos revela sobre nosso tempo: vivemos numa era que superou a metafísica, mas não a dor. Construímos inteligências artificiais, mas continuamos analfabetos emocionais. Navegamos por realidades virtuais enquanto o cavalo real continua sendo espancado em alguma rua de alguma cidade, e nós, como Nietzsche, podemos apenas assistir — ou, se tivermos coragem, abraçar o sofrimento e chorar com ele.
O mito do cavalo em Turim persiste porque precisamos dele. Precisamos acreditar que o homem que escreveu “Assim Falou Zaratustra” tinha, no fundo, um coração que transbordou diante de uma injustiça. Que a filosofia não é apenas erudição, mas encontro com o outro — mesmo que esse outro seja um animal, mesmo que esse outro seja nós mesmos em nossos momentos mais vulneráveis.
Nos onze anos de silêncio intelectual que se seguiram, Nietzsche habitou um mundo onde as palavras já não serviam. Talvez tenha sido ali, no vazio, que ele finalmente encontrou o que sempre procurou: não a verdade, mas a vida em sua nudez mais absoluta.
Ao olharmos para sua fotografia no asilo, com a barba desalinhada e o olhar perdido, vemos não a derrota de um gênio, mas a vitória do humano sobre o filósofo. Pois, no fim das contas, não são os conceitos que nos salvam — é o abraço.
O cavalo de Turim ainda galopa em nossa imaginação. E nós, contemporâneos de nós mesmos, continuamos tentando entender como um homem que desafiou os céus pôde ser vencido por um simples ato de crueldade. Talvez a resposta esteja justamente aí: ele não foi vencido pela crueldade, mas pela compaixão. E essa, meus caros, é a única vitória que importa.
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por Oswaldo de Campos Macedo – é professor e fotógrafo














