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quarta-feira 2 setembro 2026
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O Velhinho de Taubaté – Taubaté: a cidade que não inclui

O Velhinho de Taubaté – Taubaté: a cidade que não inclui

Quando escrevi Taubaté: A Cidade que Não Inclui, tive o cuidado de deixar claro que este livro não nasceu como um ato contra Taubaté. Muito pelo contrário. Escrevi porque gosto desta cidade e porque aprendi, depois de tantos anos de jornalismo, que amar um lugar não significa elogiá-lo todos os dias. Às vezes, a maior demonstração de amor é apontar a rachadura antes que a parede caia. O livro nasceu para tornar visível uma invisibilidade que estava diante dos nossos olhos: a das pessoas com deficiência e das barreiras que ainda dificultam seu direito de pertencer plenamente à cidade.

A invisibilidade social possui dessas artimanhas. Ninguém precisa desaparecer para se tornar invisível. Basta não aparecer nas prioridades, no planejamento urbano, nas calçadas, no transporte, nos equipamentos públicos, na cultura e nas decisões que interferem na própria vida. A pessoa está ali, trabalha, estuda, vota, paga impostos e enfrenta os mesmos boletos que todos nós, mas muitas vezes encontra um degrau justamente onde deveria existir uma porta. A invisibilidade mais perigosa é aquela que vemos todos os dias e aprendemos a não enxergar.

Procurei tratar dessa realidade com responsabilidade jornalística. O livro não afirma que nada tenha sido feito em Taubaté. Seria injusto com entidades, famílias, servidores, movimentos e agentes públicos que trabalham pela inclusão. Há avanços, legislação e iniciativas que precisam ser reconhecidos. Mas reconhecer o que avançou não nos obriga a silenciar sobre aquilo que ainda falta. Jornalismo não é escolher entre aplauso e denúncia; é colocar os dois diante dos fatos.

E acessibilidade não pode continuar sendo tratada como favor. Rampa não é gentileza, Libras não é cortesia e informação acessível não é presente. São instrumentos para garantir direitos. Criar uma lei também não encerra o assunto, porque entre aquilo que está escrito no Diário Oficial e aquilo que chega à vida das pessoas existe uma distância chamada execução. Direito apenas no papel é como guarda-chuva furado: você até pode dizer que tem um, mas é melhor não esperar a chuva.

A idade, aliás, ensina algumas coisas a este Velhinho. Quando somos jovens, imaginamos que acessibilidade seja problema dos outros. Depois os joelhos começam a organizar uma oposição, a coluna declara independência e aquele corrimão que nunca percebemos passa a parecer uma excelente política pública. Descobrimos então que uma cidade acessível é melhor para a pessoa com deficiência, para o idoso, para a criança, para quem empurra um carrinho de bebê, para quem usa muletas e para qualquer um de nós amanhã.

Por isso, Taubaté: A Cidade que Não Inclui não é uma sentença contra Taubaté. É um espelho colocado diante dela. Podemos discordar da imagem, melhorar a iluminação ou procurar um ângulo mais bonito, mas quebrar o espelho nunca modificou o rosto. Minha esperança é justamente que este livro envelheça depressa e que, daqui a alguns anos, alguém o leia e ache absurdo que determinadas barreiras tenham existido.

Se isso acontecer, ficarei feliz em ouvir que o Velhinho exagerou. O jornalista que aponta um problema não deveria torcer para que ele permaneça apenas para provar que estava certo. Deve torcer para que desapareça. Foi por acreditar em Taubaté que escrevi sobre a cidade que ainda não inclui, na esperança de contribuir para aquela que um dia não precisará mais deste título. Porque uma cidade verdadeiramente grande não é aquela onde cabem mais prédios, carros ou discursos; é aquela onde cabem todas as pessoas.

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por Mário Jéferson Leite Melo