Será que uma pessoa precisa de encontrar ou precisa se reconstruir? Num primeiro momento ela deve saber onde está existencialmente, se encontrar no sentido de se situar em sua trajetória. Muitas vezes a noção de se encontrar significa que existe uma versão pronta e basta encontrar, portanto que depende da descoberta.
Um trabalho de descobrir quem se é. Porém algumas partes de nós não são descobertas e sim construídas. O que significa que mudar de caminho não significa necessariamente ter se perdido. Significa apenas que um sujeito continuou.
Ninguém nasce sabendo o que deseja, o que tolera, o que merece e onde quer chegar. O percurso exige uma travessia existencial. Muito se aprendo vivendo e se perscrutando. Muitas vezes um sujeito não está perdido e sim ainda não decidiu profundamente quem quer ser para frente. A escolha exige prudência e discernimento. Porém muitas vezes é o caminho escolhido que ajuda a descobrir quem se é.
Um sujeito muda de profissão, de cidade, de planos não significa que o sujeito perdeu sua essência. Apenas pode ser que algumas versões terminaram. Algumas versões talvez não faz mais sentido. A pergunta “quem sou eu?” pode paralisar; a pergunta “Quem eu quero me tornar?” gera movimento e transformação.
Um sujeito pode passar anos no trabalho de se encontrar e pode perceber um dia que nunca esteve perdido e sim que ainda estava em construção.
O sujeito tem que elaborar sua própria história muitas vezes fragmentada e entender o significado. Construir-se pedaços esquecidos da própria história. Construir a partir disso uma nova narrativa. Como esse passado atua no presente. É um trabalho de responsabilidade em que o sujeito deve entender o que fazer consigo mesmo.
O sujeito deixa de girar em torno de si mesmo e começa a construir algo de nosso em sua existência. A construção traz para fora muitas vezes o que é doloroso e mostra o que devemos elaborar. O que significa também pensar que a forma como um sujeito se vê nem sempre corresponde ao que se é.
Essa construção existencial não significa encontrar uma verdade pronta de si mesmo porém construir uma significação. Uma construção de si que em determinadas situações é através de escombros.
Reconstruir-se implica tirar para fora a verdade de si próprio, a fazê-la tornar-se ele próprio. Cada coisa e cada pessoa tem fendas interiores; mas a luz entra precisamente por elas. Reconstruir o mundo real e reconstruir-se no mundo real. Reconstruir-se à luz da trama da vida do sujeito.
Essa reconstrução da existência significa ressignificar a própria história pessoal. A reconstrução da vida é libertar o sujeito do que o aprisiona, tornando-o responsável pelo próprio desejo. É reconstruir a identidade, recuperar a própria voz. O que entra em crise não é a existência do sujeito e sim sua identidade. O problema não é que a vida perdeu o sentido, é que o sentido antigo deixou de funcionar.
Não se trata de reconstruir a versão antiga. A verdadeira mudança é lenta, mas sólida. Tem que fazer uma escolha voltar ao conhecido ou enfrentar o novo. Geralmente as pessoas constroem sua identidade em cima de coisas externas, quando essas coisas mudam, elas entram em crise. É precisa ter base interna e estabilidade emocional.
A reconstrução da existência passa por ouvir a si mesmo, pois ouvir a si mesmo é reconstruir a própria história. É autoconhecimento de si de da sua história. Reconstruir a sua narrativa a partir da sua história, da sua própria realidade. Uma reconstrução interna que vai se refletir externamente. Não existe despertar da consciência sem dor, dizia Carl G. Jung (1875-1961).
A reconstrução exige tempo. Tempo para entender, tempo para integrar, tempo para mudar. Reconstruir o significado mais verdadeiro, o que não se dá automaticamente, o sujeito deve participar ativamente. A reconstrução externa necessita da reconstrução interna.
Prof. José Pereira da Silva














