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sexta-feira 26 junho 2026
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Fé e Razão – Natal: hoje, nasceu para nós um Salvador, Jesus Cristo!

No Natal celebramos a encarnação de Jesus Cristo! “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Celebramos que o Filho de Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, se encarnou no ventre da Virgem Maria, nasceu para ser o Redentor do ser humano, aquela que salva o homem da situação do pecado e o restabelece em comunhão com Deus. Portanto Cristo nasce para ser o nosso Salvador.

O Deus dos cristãos é Palavra encarnada, uma presença interpelante na história dos homens. “Quando um profundo silêncio tudo envolvia e a noite ia a meio do seu curso, a vossa Palavra Onipotente desceu dos céus, do seu trono real”, lemos no Livro da Sabedoria 18, 14-15.

Para os cristãos de ontem e de hoje, o Natal assinala o apogeu da história de Deus com os homens. O Natal assinala o triunfo de Cristo e a libertação de todas as formas de opressão, engano, alienação ou superstição.

O nascimento de Cristo nos desafia a repensar as nossas prioridades, os nossos valores, o nosso próprio modo de viver.

Jesus Cristo nasceu homem para restituir à humanidade e a toda a criação a sua beleza e dignidade. Natal é a grande festa de toda a humanidade.

Santo Agostinho (354-430) em seus sermões natalícios frequentemente se refere ao silêncio eloquente do menino Jesus, patente na voz das criaturas que exteriorizam a alegria de sua libertação.

No Natal não celebramos uma recordação, mas uma profecia. O Natal não é uma festa sentimental, mas um juízo sobre o mundo e o novo ordenamento de todas as coisas. Naquela noite, o sentido da história tomou outra direção: Deus para o homem, o grande para o pequeno, do alto para baixo, de uma cidade para uma gruta, do templo para um campo de pastores. A história recomeça dos últimos.

Maria dá à luz o seu filho, envolve-o em faixas e depõe-no numa manjedoura. Deus entra no mundo do ponto mais baixo, para que nenhuma criatura nunca mais esteja por baixo, para que ninguém fique fora do seu abraço que salva.
Escreveu São Leão Magno (400-461): “O Verbo , coeterno e igual ao Pai, assumiu a humildade da nossa natureza humana para nos unir à sua divindade, e Deus nascido de Deus, também nasceu de homem fazendo-se homem”.

O Natal significa precisamente isto: a vinda de Deus no meio de nós num frágil bebê de Belém. É o grande mistério da fé cristã: Deus feito homem. Deus entre nós! Mas é também um grande anúncio: Deus amou-nos a tal ponto que se tornou aquilo que nós somos, para que nós nos tornemos aquilo que Ele é.

O Natal é o maior ato de fé de Deus na humanidade. Deus só viverá na nossa Terra se cuidarmos dele, como uma mãe, a cada dia.

Deus fez-se homem para que o homem se faça Deus. Jesus Cristo nasce para que eu nasça. O nascimento de Jesus requer o meu nascimento: que eu nasça diferença e novo, que nasça com o Espírito de Deus em mim. Dizia o místico Silesius, no século XVII: “Ainda que mil vezes nascesse Jesus em Belém, de nada vale se não nasce em ti”.

Ao contrário do barulho dos centros comerciais, o Natal exige silêncio. A balbúrdia leva à fuga do mistério que se celebra. A sobreabundância de estímulos, de mensagens, de slogans publicitários eliminam o saudável silêncio.
Ontem, como hoje, os homens facilmente caíram na tentação do valorizar as aparências, os enfeites exteriores e até tirar vantagens materiais das festas natalícias.

Vivemos num tempo que parece que aquilo que celebramos no Natal pouco tem a ver com o mistério da encarnação. Precisamos repetir com fervor: Hoje nasceu para nós um Salvador, o Cristo Senhor”.

É preciso Vê-lo, envolver-se nele com todo o seu ser. O profeta Sofonias disse: “Alegra-te, faz festa. Rejubila com todo o coração (…) porque o Senho teu Deus está no meio de ti e dança, exulta por ti, circunda-te”.

Eis o Natal. Sem Logos eterno, não há Natal; sem carnal ventre de Maria, não há Natal. No Evangelho de João, depois de se afirmar que “no início era o Logos, que este mesmo” Logos estava junto de Deus” e que “Deus era o Logos”, versículo 1, afirmar-se, nos versículos 4 e 5, que o que no Logos nasceu era vida e que esta vida era a luz dos seres humanos.

O mistério da encarnação que celebramos no Natal, mas que a cada dia podemos reviver na existência, fala-nos de um Deus que, ao assumir a condição humana, foi capaz de vencer todo o distanciamento. Seremos capazes de o reconhecer também hoje?

O teólogo Dietrich Bonhoeffer( 1906-1945) disse: “ Deus não se envergonha da insignificância do homem, mas entra nela. (…) Deus ama o que está perdido, o que não é considerado, o insignificante, o que é marginalizado, fraco e abatido”.

O Natal impõe-se ainda hoje na nossa sociedade secularizada e desperta sentimentos, inspira comportamentos , amplia desejos de paz, amor e felicidade. E não podemos esquecer que esta data é sentida como pesada e difícil de viver para quem está só, para quem não tem ninguém com quem festejar.

Como cada ano, o Natal regressa para indicar-nos que há uma meta no nosso caminho. O frenesi contemporâneo criou uma espécie de insatisfação permanente: quanto mais se tem, mais se quer. É por isso que nunca se conhece um ponto de chegada e um propósito preciso e definitivo, mas vagabundeia-se sem meta.

O Natal é o sinal de um ponto de chegada, é quase o indicador de uma meta que ainda não se alcançou mas que é certa, e, não tem como centro um homem, mas o Homem-Deus. E não só porque Cristo emerge, mas também porque todas as criaturas humanas são chamadas a ser filhas de Deus, de modo que “Deus seja tudo em todos” ( 1 Cor 15,28).
A apóstolo Paulo imagina um ponto final, no qual toda a criação será redimida, fruindo da mesma liberdade e da mesma alegria dos filhos de Deus. Portanto, no termo da morte não está a morte, mas a vida. O Natal é fonte de esperança sobretudo para quem está desiludido e desencorajado.

N Anunciação do anjo a Maria, a primeira palavra é: alegra-te, rejubila, sê feliz. Abre-te à alegria, como uma porta se abre ao sol: Deus está aqui, aperta-te num abraço, numa promessa de felicidade. Maria não é plena de graça porque respondeu sim a Deus, mas porque Deus, primeiro , disse sim a ela, sem condições. E diz sim a cada um de nós, antes de qualquer resposta nossa. Como o de Maria, também o nosso “eis-me!” pode mudar a história. Com o sim ou o não ao projeto de Deus.

No Natal, Deus entregou-se para envolver toda a humanidade no desígnio de salvação universal, e isto compromete todos aqueles a quem o acontecimento foi acolhido na fé. O Natal é um convite ao silêncio do coração para acolher Deus que vêm a nós para trazer a vida plena!

Prof. Dr. José Pereira da Silva