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quinta-feira 4 junho 2026
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Fé e Razão – Idosos: a elaboração do próprio envelhecimento

Segundo estatísticas o número de idosos no Brasil chegará a 69 milhões de pessoas em 2054. Hoje temos 34,1 milhões de idosos. Em 2070 estima-se em cerca de 37,8% de toda população brasileira será de idosos. Com o envelhecimento surgem muitas questões existenciais.

Com o envelhecimento o corpo muda, as relações mudam, as prioridades mudam. O tempo da existência passa a ter outra densidade. Porém na sociedade existem poucos espaços para se pensar essa situação com profundidade e de forma qualificada.

Muitas pessoas envelhecendo porém poucos elaborando o próprio envelhecimento. É fundamental entender que o envelhecimento faz parte da complexidade da vida e é preciso sustentar essa situação existencial.

É preciso refletir sobre o tempo e o envelhecimento: o que muda, o que permanece, o que se transforma. O processo deve ser feito sem fórmulas , sem idealizações e respostas prontas. Um momento também de conversar consigo, de reflexão e convivências com suas questões.

É um tempo de repassar experiências, rever histórias e buscar novos sentidos para viver. Muitas vezes o silêncio do idoso não é falta de palavras ou do que dizer. É falta de escuta. Muitas vezes faz tempo que ninguém lhe pergunta. E escutar é uma forma de cuidado especial.

Muitas vezes na sociedade o mais difícil e doloroso no envelhecimento seja tornar-se invisível. Portanto o doloroso do envelhecimento não está apenas nas perdas do corpo, nas limitações ou no passar do tempo. O doloroso está no olhar do outro.

Muitos idosos começam, pouco a pouco, a deixar de ocupar um lugar de escuta, de desejo e de presença no laço social. Não são chamados para decidir. Não perguntam o que querem. São tratados apenas a partir de suas dificuldades, diagnósticos ou limitações.

É algo muito doloroso em uma pessoa sentir-se apagando ainda estando vivo. A pessoa não se reduz à idade. O desejo, a angústia, os afetos, os conflitos e a necessidade de ser reconhecido permanecem. Jamais envelhecer deveria significar se tornar invisível.

Nessa situação talvez uma das formas importantes de cuidado seja, justamente, continuar sustentando um lugar de escuta e de palavra para essa pessoa.

Infelizmente tem-se uma ideia equivocada de que envelhecimento significa que o desejo se apaga. A experiência mostra algo diferente. O que se transforma, não é o desejo, são suas formas, seus destinos, seus caminhos. Fundamental sustentar o desejo mesmo diante das perdas da vida.

No envelhecimento é a pessoa em suas condições próprias. Muitas vezes na velhice reabre questões antigas da vida que não foram elaboradas e resolvidas no seu devido tempo. Histórias que não puderam ser ditas, lutos que não foram concluídos, conflitos familiares que retornaram. Todas essas situações precisam encontrar novas formas de elaboração. Tem-se perdas acumuladas e a presença cada vez mais concreta da finitude.

O envelhecimento é inevitável independente do que possamos fazer – cirurgias plásticas, dietas, exercícios ou maquiagem, teremos sempre que encarar essa realidade, é parte de nossa realidade biológica.

Pode aparecer o cansaço, o vazio, o sentimento de insuficiência. É preciso sustentar aquilo que existe entre o fazer e o ser. O tempo não passa, ele se transforma! É uma etapa definitiva da maturidade humana que deve ser vivida com serenidade e bem vivida.

Prof. José Pereira da Silva