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quinta-feira 14 maio 2026
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“Crônicas e Contos do Escritor” – As pedras de nossas estradas

Tem gente que acredita que a vida é uma estrada reta, bonita, asfaltada, cheia de placas indicando exatamente para onde ir, mas basta viver um pouco para descobrir que não. Na verdade, parece mais aquelas ruas esquecidas depois da chuva, cheia de pedras, esburacadas, cheias de lama, desvios e surpresas desagradáveis. E ninguém escapa desses desvios e surpresas, mais cedo ou mais tarde eles vão aparecer. Às vezes vêm disfarçados de uma conta inesperada, de um sonho que não deu certo, de uma esperança que nunca se concretiza, de uma despedida dolorosa ou de um silêncio que pesa mais do que qualquer grito.

O engraçado é que, quando somos crianças, imaginamos que os adultos têm tudo o que querem, tem tudo resolvido, afinal, podem fazer o que querem, ir para onde desejam. Acreditamos que o mundo dos adultos é uma maravilha só.
Crescemos ainda acreditando que existe um momento mágico em que as dificuldades acabam, mas os anos passam e, finalmente, percebemos que os adultos também sofrem, também improvisam, que eles também choram escondido no banheiro e, na maior parte das vezes, a dor dos adultos é bem maior, muito maior.
Descobrimos, pela dor, que, no mundo adulto somos, muitas vezes, obrigados a fingir coragem enquanto tentamos juntar os pedaços da própria esperança.

As pedras em nossos caminhos têm um talento especial para surgir justamente nos momentos mais difíceis, justamente quando achamos que estamos cansados demais para continuar. É como se a existência olhasse para nós e perguntasse: “E agora? Vai parar aqui?”

Tem dias em que a vontade é exatamente essa, parar. Como dizia Erasmo Carlos, sentar na beira do caminho e chorar e, se tiver em condições, observar o mundo seguir sem nós, porque carregar preocupações cansa, ser forte o tempo inteiro cansa. Recomeçar, principalmente, cansa muito.

Mas existe algo estranho no ser humano, mesmo quebrado, ele continua. Talvez devagar, mancando, tropeçando, pedindo água, talvez sem acreditar tanto quanto antes, mas continua e segue em frente.

E é justamente aí que mora a beleza escondida da vida, não nas vitórias perfeitas que aparecem nas fotografias das redes sociais. Nem nos discursos prontos sobre felicidade. A beleza está naquele trabalhador que acorda cedo depois de uma noite difícil. Na mãe que sorri para os filhos enquanto tenta esconder as próprias preocupações. No jovem que recebe mais um “não”, mas envia outro currículo mesmo assim. Na pessoa que teve o coração destruído e, apesar disso, encontra coragem para amar outra vez. Somos assim, para o bem ou para o mal, somos assim e esse é o mundo dos adultos, esse é o mundo que nós, quando crianças, não conseguíamos ver.

As pedras pelo caminho mudam as pessoas, algumas nos ajudam a endurecer, outras nos ensinam. Há dores que deixam cicatrizes invisíveis, mas também existem cicatrizes que se transformam em verdadeiros mapas. Elas mostram o quanto alguém precisou lutar para chegar até ali, mostra por quantas pedras já teve que passar.
Talvez, viver seja aprender a caminhar mesmo sem garantia de estrada fácil, mesmo tendo que pular pedras e enfrentar buracos, lamas e desvios.

E, na verdade, no fim, ninguém se lembra apenas dos dias tranquilos. São os períodos difíceis que revelam forças que nem imaginávamos possuir. E, muitas vezes, aquilo que parecia o fim do caminho era apenas uma curva preparando uma nova paisagem.