• Márcio Costa – São José dos Campos/SP
Já era final de noite e todos estavam prestes a ir dormir, quando Dorinha, a filha mais velha da casa, adentrou pela porta da sala sem falar com ninguém.
Seguiu direto à cozinha, abriu a porta da geladeira, olhou de cima abaixo e bateu a mesma com toda a força, dando um suspiro de insatisfação.
A despensa ficava ao lado. Da mesma forma, abriu a porta com força, mal olhou o conteúdo e, novamente, bateu com força para fechar o armário.
Bufando de irritação, foi até a sala e, em tom áspero e alto, disse à mãe:
– Estou com fome! Não tem nada nesta casa!
A anciã já havia trabalhado o dia inteiro. Seus olhos estavam ofuscados e a mão já não segurava com vigor as agulhas de crochê. Mesmo assim, com paciência, voltou-se para a filha e lhe disse:
– Minha filha, por que tamanha agitação? A comida está pronta na prateleira de cima da geladeira. Basta esquentar e se servir. Caso não queira, ainda há alguns biscoitos e pães que consegui comprar. Estão ao lado da despensa.
– Sempre a mesma coisa… – respondeu novamente de maneira arrogante e virou as costas para a mãe.
A mãe estava cansada e meio adoecida pelo excesso de trabalho. A par das dificuldades da família, sabia das dificuldades da família e lutava, junto com o esposo, para tentar manter as necessidades básicas do lar.
– Onde você estava, minha filha? – perguntou a mãe, ao sentir o cheiro de bebida e cigarro se espalhando na cozinha.
– Não vou te falar. – Mais uma vez, refutou a jovem de forma grosseira.
– Você precisa mudar de vida, minha filha. – Tentou aconselhar a mãe e continuou.
– Essa condição não vai lhe levar a lugar nenhum. Você nunca mais participou de nenhuma atividade religiosa. Está afastada de Deus.
– De que você está falando, véi?! Lá vem você de novo. Vocês não fazem nada por mim e depois vêm com esse discurso de sempre.
Ouvindo aquelas palavras que entristeciam seu coração, a mãe insistiu mais um pouco, sem êxito. Em seguida, retornou à sala, tentando driblar o cansaço e continuar provendo a família com o seu trabalho. No entanto, no silêncio do sofá, mergulhou em pensamentos e orações em favor da filha ingrata.
* * *
A ingratidão é filha do egoísmo e o egoísta topará mais tarde com corações insensíveis, como o seu próprio o foi, assim respondem os Espíritos à Allan Kardec em O Livro dos Espíritos. [1, No. 937]
O ingrato é o algoz de hoje o qual, com suas atitudes egoístas, fere outros irmãos e contrai débitos indesejáveis para si mesmo, muitas vezes sem se dar conta.
No entanto, se hoje passamos por tais situações, é possível que em vidas anteriores também tenhamos ocupado a posição de algoz, expiando agora aquilo que nós mesmo plantamos.
Para toda encarnação, há um planejamento prévio conduzido pela espiritualidade, que cuida de nós. Exercitando o seu livre-arbítrio, o espírito escolhe o gênero das provações que considera adequadas ao seu adiantamento. Nesse contexto, muitas vezes pede para reencarnar junto a irmãos a quem feriu no passado, precisando resgatar seus débitos junto a eles. [1, No. 259]
Por outro lado, nenhum espírito reencarna com o propósito de ser ingrato, desonesto, suicida, ou adotar outras atitudes degradantes. Entretanto, durante o processo de planejamento reencarnatório, que visa o progresso, acaba sucumbindo aos apelos carnais do orgulho, da vaidade e do egoísmo, causando sofrimento e tornando-se uma ferramenta de expiação para terceiros. [1, No. 470]
Também podemos também vivenciar a ingratidão por meio de uma missão assumida. Espíritos devotados ao nosso progresso, como familiares e amigos de outras vidas, podem pedir para encarnar junto àquele que ainda não superou as garras do egoísmo, com o objetivo de ajudá-lo a evoluir.
Neste caso, a missão pode se tornar árdua, imersa nos eflúvios de ingratidão exalados por um filho, um amigo ou um funcionário. [1, No. 572]
Alguns respondem à ingratidão com frieza, afastando-se de outros na tentativa de se proteger. Mas, na verdade, acabam participando de sentimentos egoístas, trocando a caridade que poderiam praticar, ainda que em forma de prece, pelo isolamento. [1, No. 938]
Seja em expiação ou em missão, devemos sempre recorrer à espiritualidade de luz para nos fortalecer diante de situações desoladoras como estas.
E jamais deixar de cuidar, prestar auxílio e orar pelo ingrato, pois ele será o primeiro a expiar pela consequência de seus atos.
Devemos agir como a mãe de Dorinha: nunca desistir. E, se nossa voz não ecoa, que nossas emanações mentais em preces de amor possam envolver aqueles que ainda estão afastados da luz.
Referência:
[1] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, 93a. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.






















