Diagnóstico apresentado durante audiência pública revela deterioração do patrimônio, enquanto Movimento Salve a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos cobra que compromissos assumidos se transformem em projeto aprovado, recursos e obras.
Depois de 16 anos de portas fechadas, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos chegou a um ponto em que preservar não pode mais significar simplesmente esperar. Durante a audiência pública realizada no dia 14 de agosto, na Câmara Municipal de Taubaté, as discussões sobre o futuro do patrimônio deixaram claro que a mobilização pela recuperação da Igreja entra agora em uma nova etapa: transformar o debate, os compromissos e os encaminhamentos assumidos em ações concretas.
A urgência foi evidenciada pelo relato da estudante de Arquitetura Manuela, que apresentou informações sobre os levantamentos realizados no interior da Igreja entre agosto e dezembro de 2024. O cenário encontrado revela a gravidade da situação. O coro original havia desabado, havia infestação de pombos e as condições internas exigiam o uso de equipamentos de proteção, como luvas, máscaras e capacetes, para a realização dos trabalhos.
Para quem passa diariamente diante da Igreja do Rosário, a situação pode parecer apenas a de mais um prédio histórico fechado no centro da cidade. Mas o diagnóstico apresentado durante a audiência mostrou que, por trás das portas fechadas, existe um patrimônio que continua sofrendo os efeitos do tempo e da falta de uma intervenção definitiva.
O tempo está agindo contra a Igreja.
E é justamente por isso que o Movimento Salve a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos defende que o processo de restauro avance com a maior responsabilidade e agilidade possível.
Restauro, e não destruição
Durante a audiência, o debate também reforçou a necessidade de que qualquer intervenção preserve as características e os elementos históricos da Igreja.
A proposta defendida é a do restauro, com respeito à autenticidade do patrimônio e à sua importância histórica, cultural e simbólica.
A preocupação não é apenas recuperar uma estrutura física. A Igreja do Rosário carrega uma história diretamente relacionada à presença e à trajetória da população negra em Taubaté e no Vale do Paraíba. Por isso, cada decisão tomada daqui para frente terá impacto não apenas sobre a edificação, mas também sobre a memória que ela representa.
O próximo passo está definido
Um dos principais resultados da audiência foi a apresentação dos próximos encaminhamentos para que o processo avance.
O projeto executivo de restauro está em fase final de adequações técnicas pela empresa responsável. Depois de concluído e protocolado, o documento deverá ser encaminhado para análise do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico.
A expectativa é que seja convocada uma reunião extraordinária para acelerar essa etapa.
A aprovação do projeto é fundamental para que o processo possa avançar para as etapas seguintes, incluindo a busca e a articulação dos recursos necessários para a execução do restauro. É nesse ponto que a mobilização da sociedade civil continuará sendo decisiva.
Para o Movimento Salve a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a realização da audiência pública foi uma conquista importante, mas não representa o ponto final da luta.
A audiência conseguiu reunir, em um mesmo espaço, representantes do Poder Legislativo, da Diocese de Taubaté, do IPHAN, da Defensoria Pública, do movimento negro, da sociedade civil e do Poder Executivo.
Agora, o desafio é garantir que essa convergência de forças produza resultados concretos.
Preservar também é revitalizar a cidade
A recuperação da Igreja do Rosário também pode representar muito mais do que a preservação de um patrimônio histórico.
Durante a audiência, o vereador Isaac do Carmo destacou que cidades que valorizam seus patrimônios conseguem transformar sua história em desenvolvimento, turismo cultural e revitalização urbana. A recuperação da Igreja do Rosário pode, nesse sentido, contribuir para devolver vida a uma importante área do centro histórico de Taubaté.
Um patrimônio restaurado e devolvido à comunidade pode gerar novas possibilidades culturais, educativas e turísticas, além de estimular a circulação de pessoas e contribuir para a valorização de seu entorno.
A discussão também chegou à necessidade de recursos para tornar o projeto realidade.
Em participações por vídeo, o deputado federal Alencar Santana e Nabil Bonduque defenderam articulações junto ao Ministério da Cultura e a utilização de recursos públicos para a recuperação de patrimônios de relevância histórica.
O representante do IPHAN, André Bazzanella, também apontou caminhos relacionados ao reconhecimento patrimonial e à possibilidade de articulação em âmbito federal.
A audiência, portanto, não encerrou a mobilização.
Pelo contrário.
Ela ajudou a definir com mais clareza o caminho que precisa ser percorrido.
Primeiro, a conclusão das adequações técnicas do projeto. Depois, a análise pelo Conselho Municipal de Patrimônio Histórico. Em seguida, a continuidade das articulações institucionais e da busca pelos recursos necessários para que o restauro possa finalmente sair do papel.
Os vereadores Talita Cadeirante e Isaac do Carmo reafirmaram o compromisso de acompanhar e fiscalizar o processo.
E o Movimento Salve a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos seguirá mobilizado.
Depois de 16 anos de portas fechadas, a sociedade civil conseguiu recolocar a Igreja no centro do debate público.
A audiência foi uma vitória.
A participação do IPHAN, da Diocese, da Defensoria Pública, do movimento negro e dos representantes
do Poder Público mostrou que existem caminhos possíveis.
Mas o patrimônio continua fechado.
E é justamente por isso que a luta entra agora em uma nova fase.
A Igreja do Rosário já foi recolocada na pauta. Agora, o compromisso é fazer com que ela volte a ser devolvida à cidade.
Porque preservar não é apenas impedir que um prédio desapareça.
É garantir que a história que existe dentro dele continue viva — e possa, finalmente, voltar a ser compartilhada com toda a comunidade.














