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sábado 9 maio 2026
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Giramundo – Minha mãe, minha terra, meu sertão e minhas histórias

Toda vez que o calendário se aproxima do Dia das Mães, alguma coisa dentro de mim se recolhe e, ao mesmo tempo, se abre. É como se a lembrança da minha mãe acendesse, uma por uma, as luzes antigas da minha infância no sertão de Cunha, onde o tempo não corria com pressa de cidade, mas seguia o passo quieto das coisas essenciais. Ali, entre as casas simples, as noites frias e o silêncio vasto da paisagem, aprendi que existem lugares que não são apenas um endereço: são uma origem. E a minha mãe era esse lugar.

Quando penso nela, penso na terra. Não numa terra seca apenas, mas numa terra viva, fecunda, trabalhada com as mãos, com a fé e com a coragem cotidiana de quem sabe sustentar uma família sem fazer alarde. Minha mãe foi chão e foi abrigo, foi estrada e foi descanso. Foi presença firme nos dias difíceis e luz discreta nos dias de alegria. Ela tinha aquela sabedoria que não se aprende nos livros, embora merecesse constar em todos eles: a sabedoria de compreender a vida pelo gesto, pelo olhar, pela paciência, pelo modo como se enfrenta o mundo sem perder a dignidade.

No sertão, as noites de inverno tinham uma grandeza que hoje ainda me comove. O céu parecia descer mais perto da gente. As estrelas, inúmeras e vivas, não eram apenas pontos luminosos na imensidão; eram companhia, eram mistério, eram convite à imaginação. E minha mãe, diante daquele firmamento aberto, sabia transformar a contemplação em conversa. Falávamos sobre o infinito, sobre o mundo, sobre os sinais do céu, sobre os nomes das constelações e as antigas narrativas que o homem inventou para explicar aquilo que o olhar apenas pressentia. Às vezes ela recordava os povos antigos, os gregos, os egípcios, os mitos que atravessaram séculos tentando dar forma ao que é maior do que nós. E eu a escutava como quem escuta uma mestra silenciosa, porque ela também ensinava a ver.

Havia algo de profundamente humano naquele modo de viver. A vida no sertão não era feita apenas de escassez, como muitos imaginam de fora. Era feita também de abundância simbólica. Havia histórias, causos, risadas, conselhos, silêncios e longas conversas sobre a existência. O cotidiano não era pequeno; era vasto. Tudo podia virar reflexão: o nascimento de uma criança, a chuva esperada, o frio da noite, a visita de um vizinho, o trabalho do dia, a lembrança dos que partiram. E minha mãe participava disso como quem costura o mundo com linha invisível. Ela dava forma à casa, sentido ao tempo e direção aos filhos.

Foi ela quem nos ensinou, a mim e aos meus irmãos, que viver é também aprender a resistir sem endurecer. Que a honestidade tem peso. Que o respeito vale mais do que aparência. Que a palavra dada precisa ter valor. Que o estudo, o trabalho e a retidão não são enfeites de caráter, mas sua base. Quantas vezes, olhando para ela, compreendi que educar não é apenas alimentar e cuidar, embora isso já fosse imenso; educar é também preparar o espírito para o bom combate da vida, para a travessia das dificuldades sem perder a alma.

Minha mãe possuía essa grandeza de quem não precisa levantar a voz para ser ouvida. Sua autoridade vinha do exemplo. Seu afeto vinha da constância. Sua força vinha da perseverança. E, mesmo nas horas mais duras, havia nela uma forma de esperança que não se deixava apagar. Essa esperança talvez nascesse do próprio sertão, que ensina a esperar a chuva sem desistir da terra, a confiar na manhã sem negar a noite, a caminhar mesmo quando a estrada parece longa demais.

Hoje, quando a imagino como estrela, não o faço apenas por metáfora bonita. Faço porque ela realmente continua iluminando o meu caminho. As pessoas que amam de verdade não desaparecem: transformam-se em presença interior, em lembrança ativa, em voz que nos acompanha quando precisamos de direção. Minha mãe está nas pequenas decisões que tomo, no modo como olho o mundo, nas palavras que escolho, na maneira como respeito a vida e as pessoas. Ela vive no que há de melhor em mim e, talvez, também no que ainda estou aprendendo a ser.

Há mães que se tornam memória; a minha se tornou paisagem. É como se eu carregasse dentro de mim um pedaço do sertão onde ela viveu e me formou. Quando penso na sua história, vejo não só uma mulher, mas uma fundadora de mundo. Alguém que ajudou a erguer uma família com o esforço diário de quem conhece o valor de cada conquista. Alguém que fez da casa uma escola de humanidade. Alguém cuja vida, mesmo nas dificuldades, gerou respeito junto à sociedade e admiração entre os que puderam testemunhar sua retidão.
E é por isso que hoje, ao falar dela, não consigo falar apenas de saudade.

Preciso falar também de júbilo. Porque minha mãe merece não apenas lembrança, mas celebração. Merece o reconhecimento de tudo o que construiu. Merece o carinho dos filhos, a gratidão dos amigos, a reverência dos que compreenderam sua dignidade. Merece ser contada nas conversas de família, nas noites de luar, nas horas silenciosas do sertão e nos encontros da memória em que a gente percebe que algumas pessoas não passam: permanecem.

Se hoje sou capaz de escrever sobre ela é porque ela me deu matéria para a vida e para a palavra. Minha mãe foi minha terra porque me sustentou. Foi meu sertão porque me ensinou a profundidade. Foram minhas histórias porque me deu lembranças que não envelhecem. E foi, acima de tudo, a grande estrela da minha existência.

Por isso, nesta homenagem, eu a celebro com respeito, amor e infinita ternura. Celebro a mulher que me criou, que me formou, que me ensinou a olhar o céu sem esquecer a terra. Celebro a mãe que fez do lar um lugar de força e do afeto uma herança. E celebro a estrela que hoje, mesmo distante aos olhos, continua acesa dentro de mim, iluminando minhas noites, guardando meus passos e lembrando que o amor de mãe é um céu que nunca termina.

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por Oswaldo Macedo