Search
domingo 26 julho 2026
  • :
  • :

Fé e Razão – A idolatria do ego

Fé e Razão – A idolatria do ego

O sujeito não se realiza verdadeiramente e profundamente pela via do ego, porém quando sai do próprio micromundo e vence a tendência de achar que o mundo gira em torno de si mesmo. Vencer a idolatria do ego é trabalhar com o eu profundo. Podemos dizer: tu não és o centro do mundo, sai de ti mesmo. Exige um certo e sadio esvaziamento de si. Existo o outro com quem convivemos.

O outro é acolhido como lugar ético, cujo rosto nos devolve a verdade do que somos. Como afirmou E. Levinas (1906-1995) : O outro não limita a nossa liberdade porém nos convoca à responsabilidade. O outro não é algo opcional em nosso viver. Não existe experiência humana autêntica sem a experiência do outro. O sujeito vive para idolatrar o próprio eu.

A vida humana é sempre convívio e co-existência. A subjetividade humana é sempre inter-subjetividade. A egolatria e egopatia podem remeter para uma existência desprovida de sentido.

A idolatria do ego é um narcisismo exagerado ou uma hipertrofia do ego. Um investimento excessivo na própria imagem levando o sujeito a não se importar com o outro. O sujeito se acha o centro do mundo e se considera onipotente. A pessoa passa a ter uma imagem idealizada de si mesma o que a leva a alienar-se do seu ser real, Lacan nos fala do Estádio do Espelho.

Essa egolatria muitas vezes esconde a fragilidade e um vazio pessoal, uma forma de se proteger de frustrações ou de si mesma.

Uma sociedade que dá mostras de acentuado individualismo, egoísmo , philautía (amor-próprio) e egolatria. Isso tira de muitas pessoas a capacidade de doação e compaixão. O outro é visto em sua utilidade e não como sujeito.

A egolatria desumaniza , pois perde-se a capacidade de doar-se como um ato de autêntica humanização. Na egolatria prevalece a lei da utilidade, da troca utilitarista. A egolatria é contrária ao doar-se a si mesmo, não só de dar o que se tem, o que se possui, mas de dar aquilo que se é. A egolatria tira da pessoa a convicção profunda no relacionamento com o outro.

A egolatria na prática pode gerar a ingratidão, a manipulação, a indiferença e até mesmo a violência. A egolatria pode se constituir numa recusa individual de construir comunhão e solidariedade.

A egolatria é contrária a capacidade que o ser humano tem de operar o bem, pois sente sua própria insuficiência e busca o outro para uma plenitude que ele não possui em si.

O imperialismo do ego que se considera senhor absoluto de tudo, desfigura o sujeito. A essência da modernidade é a instituição da autonomia como única chave de leitura do humano, o que alimenta a egolatria. O Cogito cartesiano faz do homem senhor absoluto (ego cogito). O ego cogito deve enfrentar a seguinte pergunta: Alguém pensa em mim? Alguém me ama?. É preciso sair de si mesmo, o ego idolátrico não consegue sair. É preciso reabilitar a alteridade. A hipertrofia e intumenscência do eu.

O sociólogo polaco Zygmunt Bauman ( 1925-2017) chama a sociedade hodierna demoliu todos os impedimentos que de um modo ou de outro limitam a liberdade individual de escolher e agir. O ególatra se acha senhor único de tudo o que tem produzido insensatez, alienação, estupidez e sofrimento.
O ego enche a modernidade. A redução do outro ao ego, à esfera do ego.

Numa época moldada pelas redes sociais em que se busca a popularidade e o ser visto, é um palco de egos, em que likes e seguidores tornam-se indicadores de valor pessoal e ai surge as comparações, situações que distorcem a identidade pessoal. É uma busca constante de validação para sustentar a falsa autoimagem.

A idolatria do ego ou o ególatra mostra alguém que tem incapacidade de alteridade, de reconhecer o outro enquanto outro, olhando o outro como extensão de suas necessidades pessoais. Infelizmente vislumbramos uma geração que cultiva a idolatria do ego, começando na infância.

Essa idolatria vem camuflada de autossuficiência, do eu me basto. Nessa situação percepção se transforma em verdade, a opinião se transforma em doutrina, o desejo pessoal em lei absoluta. Porém na prática se o ego deseja liberdade ele na verdade aprisiona, se fala em força na verdade esconde a fragilidade humana, se acena com sentido, na verdade causa vazio existencial. O ego excessivo vai se apresentando com sutileza que procura convencer que não existe necessidade de aprender, ouvir e em reconhecer os próprios limites humanos. O ego vai criando distância e tornando as pessoas superficiais. A vaidade do ego deve dar lugar a vulnerabilidade, a necessidade de se aprender. O ego não permite ver a profundidade da realidade. O ego atrapalha uma visão real da própria vida pessoal e a dos outros. É necessário que o ego diminua para que a vida cresça sempre mais com maturidade e profundidade.

Prof. José Pereira da Silva