Ah, mas aquelas ruas incomodavam, para fazer as compras que a mãe pedia, Cecília passava por três ruas de paralelepípedos ou “pedras”, como diziam os moradores da pequena cidade de Cerro Azul. A da sua casa, e mais duas, que sacudiam sua bicicleta e faziam seu corpo inteiro tremer como se fosse um espasmo ou uma convulsão. Bom, depois de passar pelas três ruas, chegou ao armazém e começou as compras. Quando chegou ao penúltimo item, viu que a mãe queria uma dúzia de ovos, mas, como levar uma dúzia de ovos, pedalando por aquelas ruas da tortura? Sem chance. — Afff. Vou ter que voltar empurrando a bicicleta. –
Fez uma careta e lá foi pegar os ovos. Terminou as compras, pagou a conta e foi empurrando a bicicleta, com os saquinhos plásticos pendurados no guidão, um deles com uma dúzia de ovos, e sonhando com o dia que o progresso chegasse à Cerro Azul. Certa vez, ouvira falar de um tal de asfalto, lisinho, sem buraco, onde poderia pedalar sua bicicleta sem sentir os sacolejos das ruas de “pedras”. Bom, teria que esperar a maravilha chamada asfalto chegar em Cerro Azul.
Os dias passaram, semanas, meses, talvez dois ou três anos e se tornou adolescente, ainda pedalando (e sacolejando) pelas ruas de paralelepípedos. Perto de seus dezoito anos, hora de arrumar trabalho e lá foi ela, pedalando, sacudindo e entregando currículos e logo veio a proposta, trabalhar como vendedora em uma loja de roupas. Ela adorou, mas a loja ficava na mesma rua do armazém onde fazia compras, ou seja, continuaria a pedalar pelas ruas de “pedras”. Mas, o que podia fazer? Tinha que trabalhar.
Simpática e sorridente, logo se destacou, ganhava salário fixo mais boas comissões. Estava feliz, mas ainda desejava que o progresso (asfalto) chegasse logo.
A vida seguiu e a grande notícia chegou, as ruas de Cerro azul seriam asfaltadas. Chega de sacolejar, asfalto lisinho e fim da tortura. Uma semana depois, uma pequena correção e certa decepção, somente algumas ruas seriam asfaltadas. Sua esperança era que as que usava fizessem parte das ruas que seriam asfaltadas. Os comentários logo surgiram, diziam que a rua do hospital seria asfaltada, outros diziam que somente a rua da prefeitura e da Câmara dos Vereadores e, na verdade, ninguém sabia de nada. Surgiram diversas informações “oficiais”, cada uma diferente da outra, sobre quais ruas seriam asfaltadas e quais seriam as primeiras. Dias passaram, semanas, e o povo de Cerro Azul se perguntando sobre o moderníssimo asfalto. E o dia chegou, a rua da casa de Cecília seria asfaltada, mas a do serviço não, que pena.
Os trabalhadores vieram, as máquinas também, e arrancaram paralelepípedos daqui, dali, da rua inteira. Obras em diversas ruas da cidade, confusão, ruas interditadas, desvios, caos.
Mas, tudo bem, é o progresso chegando. E, para piorar, o terrível cheiro do asfalto, dias e dias de cheiro ruim, obras e confusão, mas as ruas se tornaram verdadeiros “tapetes” de tão lisos, nada de buracos. Que beleza o progresso e Cecília adorava andar de bicicleta ali, mas tinha que tomar cuidado, os carros estavam correndo muito e duas semanas depois de colocado o asfalto, o primeiro acidente.
Alguém freou o carro de repente e outro alguém bateu atrás, nada grave, ninguém se machucou, apenas prejuízo material e a vida segue, mas um mês depois, o segundo acidente. Dessa vez, um atropelamento e agora um pedestre foi para o hospital. Era preciso fazer algo, os carros estavam correndo muito e os acidentes se tornaram corriqueiros nas ruas asfaltadas, era preciso ter cuidado.
E chegaram as chuvas que, naquele ano, vieram fortes. Nas ruas com as horríveis “pedras”, como sempre, nada aconteceu, as águas se infiltravam por entre as “pedras”, mas nas ruas asfaltadas, enchentes. Bueiros mal projetados, parcialmente tampados pelo asfalto, não deram conta. Sem ter como infiltrar no solo, as aguas invadiram casas e surpreendeu a todos, ninguém havia visto aquilo. Sofás perdidos, camas, televisões, geladeiras, armários, móveis em geral, alimentos e tudo o mais. Era o preço do progresso.
E foram dias de agonia e inundações e, para alívio de todos, chegou ao final. As aguas deixaram prejuízos e muitos buracos no asfalto de má qualidade. O tapete, antes liso, agora, deteriorado e esburacado.
Cecília entrou na rua do serviço, freou a bicicleta, arregalou os olhos e escancarou a boca. Não podia acreditar no que via e balançava a cabeça de um lado para outro, os homens arrancando os paralelepípedos. O chefe dos operários a viu olhando estupefata para a retirada das “pedras”, sorriu, se aproximou e ela perguntou hesitante.
— É…é…o progresso chegando?
Ele ampliou o sorriso e respondeu.
— Acalme-se moça, só vamos virar os paralelepípedos, mudar de posição, esse lado já está muito gasto.
Ela sorriu, agradeceu e seguiu, sacolejando, aliviada e feliz, para o serviço.






















