Apenas observo, nada digo. Fecho os olhos e sufoco um grito de socorro, talvez de desespero. Se o presente está ruim, o futuro promete ser pior. Não se pode falar, não há o que fazer, a quem recorrer, nada a tentar. Sim, e é melhor nem reclamar.
É isso, impotente, inoperante, vulnerável, limitado, dominado, com o grito preso na garganta.
E, com expressão raivosa, grita o poderoso:
— Cale a boca, não reclame, se o fizer…te prendo.
O mal venceu? Como? O que aconteceu? O bem não deveria ter vencido?
Olho para o céu e vejo uma camada cinza, tendendo para nuvens negras.
Alguém sussurra:
— Acalme-se rapaz, não há o que fazer e qualquer coisa que falar será usado contra você e as masmorras te esperam. Os grilhões não foram rompidos e te apertarão os calcanhares.
É verdade! Você tem razão, tenho que me acalmar, me sufocar.
Foi errado, sim, sabemos, mas nada se pode fazer. O sistema é duro, é cruel, sufoca, atropela, passa por cima. Estamos todos asfixiados, com olhos nublados por uma camada de tristeza e medo. Vai começar a caça às bruxas que deserdaram satã.
Os poderosos mostram seus caninos e os punhos de ferro. Apoiados em escrivaninhas cheias de leis que os favorecem. A esferográfica, paciente e submissa, repousa, aguardando as ordens que deve colocar nos papéis. Nos malditos papeis.
Tudo muito bem feito, tão às claras que parece inocente, mas é a triste realidade, o mal venceu. Eles venceram, o satã maldito e bêbado ri à toa. Eles sabiam, sim sabiam.
Os tolos acreditaram em satanás. Tolos e estúpidos. Já se dizia que os estúpidos são mais perigosos que os cruéis, mas a pergunta grita.
— Não seriam os estúpidos já cruéis??? Ou os cruéis, estúpidos por natureza???
Olho o horizonte, cadê o encontro do céu e mar? Vejo uma linha vermelha. Será sangue?
Mas, o bem não deveria ter vencido?
Na verdade, todos esperavam a sacanagem, só não sabiam de onde viria e como viria. E veio forte, descarada, mas e daí? Os donos da lei a sustentam, dão validade. Sorrindo, eles assinam embaixo e, enquanto isso, os plebeus, exaustos e abatidos, se abaixam em reverência aos poderosos. Festa no palácio, o rei velho, decrépito e maldoso venceu.
E dá-lhe mais impostos para os plebeus enfraquecidos pagarem. Sim, o rei quer mais. Justificável a ânsia do rei por mais e mais impostos, afinal, há o projeto de cem anos no poder e os estúpidos que bancaram o rei, também vão pagar a conta. Oh, se vão. E ainda os verei chorando por ter que pagar a conta e, nesse momento, mesmo que também sofrendo (porém sem culpa), faminto, enfraquecido, mesmo com tudo isso, ainda assim rirei com vontade.
Satã abriu de vez os portões do inferno e demônios infestam o palácio e, a grama, antes verde e viçosa, agora é vermelha, tingida com o sangue dos inocentes.
Jantares, festas, joias e viagens, pagas com o dinheiro dos plebeus, mas os tolos, burros e estúpidos que acreditaram neles, pagarão a conta também.
Calem-se! Obedeçam!
Proibido reclamar, proibido falar, proibido agir, proibido rir, comer, respirar e viver.
Proibido! Proibido! Proibido! Proibido! Essa é a palavra de ordem.
Só não é proibido proibir.
O rei sacana venceu, vitória dos esquemas, das mentiras, da falsidade, da corrupção. Vitória do tinhoso, do anjo caído. As bestas do apocalipse estão livres para mandarem e desmandarem e se você, por acaso, não concordar, as masmorras e o pelotão de fuzilamento te esperam.
Mas, como sempre, confio em Deus e sei que, um dia, um dia, o bem ainda vai vencer.
________
por J. Robson














