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segunda-feira 27 abril 2026
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“Crônicas e Contos do Escritor” – Credo, nave espacial

Não estamos sós, será mesmo? Tem quem duvide. Para mim, não há dúvida que temos vizinhos e, certa noite, não sei se foi um sonho ou se realmente aconteceu. Acordei às quatro da madrugada ao som de maquinaria pesada. Imaginei que fosse a prefeitura aproveitando o horário sem trânsito para fazer alguma obra, mas no sagrado horário de dormir? Cadê a lei do silêncio? Existe mesmo? Abri a janela enfurecido, mas curioso para saber que raios de obras estavam fazendo, e nada vi. Permaneci alguns minutos procurando as obras da prefeitura, mas, para minha surpresa, nem uma outra janela se abriu. As luzes nas casas e prédios do entorno continuaram apagadas, apesar do barulho metálico que soava como se fosse um gato ronronando. Com certeza um gato muito grande.

Ainda surpreso com o fato de todos continuarem dormindo, apesar do ruído alto e estranho e sem conseguir encontrar as supostas máquinas da prefeitura e, lógico, como amante do imaginário de extraterrestres, acreditei que só podia ser som de nave espacial. Mas, por mais que procurasse não a encontrei, mas passei a ter a certeza de que o som vinha lá da praça, próximo ao prédio. Devia ser invisível, como será que os alienígenas conseguem essa tecnologia? Já pensou se pudéssemos ficar invisível? Epa! Sei não, sei não, como tudo na vida essa tal de invisibilidade vai ter seu lado bom e seu lado ruim. Mas, creio que apesar de ter a tecnologia da invisibilidade, os extraterrestres devem ser surdos para não se preocupar com esse zumbido insistente e irritante. Sim, é isso mesmo, os ETs devem ser surdos e se comunicam por telepatia. Bom, ainda irritado, com a prefeitura e com a nave espacial, vendo um problema sem solução aparente, deitei de novo para tentar dormir, mas rezei para não acordar abduzido em outra dimensão. Já pensou se me levam para Zybellium?

O barulho continuava. Virei de um lado para outro na cama e nada. Cobri as orelhas com os travesseiros e nada. Então percebi que havia deixado a janela aberta e levantei para fechar. Ao chegar próximo vi o que não deveria ser visto e tive que acreditar no inacreditável. Lá na praça havia uma nave, agora visível. Calcei os chinelos e, ainda de pijama, desci correndo e saí do prédio em direção à praça e só então percebi que estava cheia de gente. De onde veio todo mundo? Em volta da nave havia uma estranha luz e dezenas (ou seriam centenas?) de pessoas que gritavam ensandecidas. Umas diziam que queriam ir embora daqui para sempre, outras diziam que queriam passear pelo universo.

Os ETs estavam meio assustados e um deles, horrorizado, queria o povo longe. A confusão era geral e um de meus vizinhos disse que queria embarcar por medo da guerra nuclear, outro disse que tinha medo de ser assaltado, outro disse que não tinha feito nada, que lutara pelo país dele, mas que mesmo assim estava usando tornozeleira eletrônica, uma baita injustiça. Gritou que precisava entrar na nave porque ia ser preso pelos morcegões. Outro dizia que não aguentava mais ser zuado pela falta de mundial e assim a confusão aumentava. Mais uma vez, os Ets tentaram afastar o povo que fizeram menção de invadir a nave à força. Então uma estranha, azulada e fedida fumaça subiu às narinas de todos. Ninguém sabia de onde tinha vindo, mas ardia nos olhos, confundia as mentes e, aos poucos, uma por uma daquelas pessoas foram caindo, se engasgando e morrendo com aquela fumaça tóxica. Caí também e só tive tempo de ver a nave partindo. Mas, de repente, sem saber como, estava em minha cama. Havia sido somente um pesadelo. Olhei para a janela e estava fechada. Sem entender nada, dormi de novo.

Na manhã seguinte, graças a Deus ainda estava na Terra, ou seria melhor ir para bem longe? Talvez em outro planeta não tenha tantos políticos desonestos ou, talvez, a justiça seja menos injusta.