Há encontros que parecem ter sido planejados pelo próprio tempo.
O vinho e o livro é um deles.
Olho para a mesa de madeira, resinada, onde repousa uma silenciosa garrafa de vinho, um bom cabernet sauvignon, chileno. A observo e vejo que guarda histórias que amadureceram durante anos. Ao seu lado, um livro fechado, silencioso, “Estrada para Zybellium”, do escritor J. Robson J., ou seja, eu mesmo. É mais um dos meus filhos.
Dentro dele, vivem personagens, sonhos, conflitos, sofrimentos, tragédias, desejos e muita, muita, ficção científica.
Ambos, vinho e livro, exigem paciência e recompensam quem sabe esperar.
Sento à mesa e, pacientemente, abro a garrafa e o primeiro gole me aquece a garganta. Abro o livro, como se fosse um leitor ávido para saber o que aquelas páginas vão me trazer e a primeira página já me desperta a imaginação e, aos poucos, percebo que o mundo lá fora perde a importância. A chuva batendo no telhado e nas vidraças fica distante e nem a percebo mais e, enquanto isso, o relógio continua trabalhando, mas já não define nada para mim. Estou concentrado na mesa resinada, naquela garrafa e no meu livro, literalmente. Sei que a pressa desistiu de entrar pela porta. Vinho e livro juntos, me esqueci do tempo, da vida, de tudo.
Assim como um bom vinho revela novos aromas a cada instante, meu livro também se transforma, conforme o leitor. E, também, o livro nunca será o mesmo quando lido na segunda vez. Simplesmente, muda o sabor das palavras.
Há vinhos leves, alegres, feitos para boas conversas, mas eu diria que o Cabernet é um vinho encorpado, forte, bons para nos fazer esquecer de tudo. Do mesmo jeito, há livros que arrancam risos, lembranças e uma confortável sensação de paz, mas não é o caso do “Estrada para Zybellium”, forte, elétrico, preocupante, misterioso, assustador. Um livro que não se esquece, mas que ainda assim, será diferente cada vez que se lê.
Em uma época onde tudo precisa ser rápido, meu vinho e meu livro caminham no sentido oposto. E agradeço por isso. Desfruto lentamente da primeira taça, lendo atentamente aquilo que escrevi dois ou três anos atrás.
Não podemos, nunca, nos esquecer que algumas das melhores experiências da vida não podem ser apressadas. Tem que ser saboreadas.
Talvez, seja por isso que uma taça e um livro formem uma parceria tão perfeita.
Um alimenta o corpo com seus aromas e sabores, enquanto que o outro, alimenta a alma com ideias, sentimentos e viagens para o desconhecido.
A noite está por terminar, a chuva parou e nem percebi, e resta sobre a mesa um livro, “Estrada para Zybellium”, um marcador de páginas, uma garrafa vazia e uma taça com um fundinho vermelho que denuncia o líquido que por ali passou.
Mas, podemos dizer, fica também, a agradável certeza de que houve uma conversa silenciosa entre o escritor, o leitor e o vinho. Então, concluo que conversei comigo mesmo por horas, saboreando um dos meus vinhos preferidos.
E, como a mente do escritor nunca para, no meio da conversa comigo mesmo, intercalada por goles de Cabernet Sauvignon, nasceu a ideia de mais um livro, “As Naves de Alendon” que está, apenas, começando a nascer.
Ficou a certeza que, às vezes, para se ter momentos felizes, basta abrir um bom livro, uma boa garrafa de vinho e permitir que o tempo passe sem pedir licença.
Olho para a vidraça, procuro a chuva que já foi embora, desvio o olhar para o relógio, é tarde e decido dormir, ansioso para começar a escrever “As neves de Alendon”.
Uma misteriosa e inexplicável mente de escritor, a história está pronta. É só escrever.
Mãos à obra ou seria…mãos à escrita?
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por J. Robson













