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sábado 7 março 2026
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Tribuna Livre – Uma crônica de Natal

Querida mãe,
Houve na história de uma cidade uma pessoa que não era como as outras que fizeram a História. Não veio a História. Não veio de lugar distante, nem herdou grandes fortunas. Era somente uma simples criatura que nasceu ali num lugar desconhecido dentro de uma cidade pouco conhecida, que veio ao mundo da maneira mais rudimentar e que parecia ser apenas mais uma criatura de Deus. No começo pouca gente notava quem era essa criaturinha, mas pouco a pouco muita gente a foi conhecendo melhor. A maioria das pessoas que não lhe davam importância nem atenção, hoje não tem mais nenhuma importância nem atenção. Na verdade, essa pessoa é hoje a mais importante das que nasceu em tal cidade.

Essa pessoa não se destacou por ter erguido um grande império, nem por juntar riquezas, nem por qualquer coisa material que tenha feito ou dado. Ela estava acima de todas as outras pessoas por ter em seu coração uma ternura inimaginável e natural. Uma ternura que fazia com que todos ao seu redor se sentissem como seus filhos.

É certo que essa pessoa cometeu erros, mas ninguém pode dizer que houve alguém que amou tanto dos seus quanto ela. Ninguém pode saber isso pelos atos ou ações dessa pessoa, ainda que muitos deles tenham sido primorosos exemplos cabais de sacrifício humano. Só pode imaginar esse amor quem esteve perto dela e sentiu o que estava dentro de seu coração era um sentimento muito maior do que as suas obras. Era um sentimento tão grande e tão forte que nunca se traduziu concretamente, porque nada há de concreto que pudesse encarnar tanto amor. Na verdade, era tanto amor o amor em seu coração que ele jamais pode aflorar nesse mundo de modo coerente e conciso. Era um rio de sentimentos profundos que manava e carregava todo o resto consigo.

Quem teve o privilégio de conviver com esse ser em seu tempo e testemunhar seu amor viveu e sentiu isso. Quem não o pode jamais saberá.

Há muita gente que escreve isso dos seus e, por isso, são considerados suspeitos. Mas eu sou e sei que sou insuspeito porque não há alguém mais imparcial do que eu, quando se trata de julgar as pessoas, sejam amigos ou inimigos. Ainda mais que eu nunca hesitei em criticar essa pessoa.

Na verdade, essa pessoa a quem e refiro não é nem Jesus Cristo nem é a Virgem Maria, nem São Francisco de Assis, que nasceram no velho mundo. Essa pessoa nasceu no Bairro Registro e eu não conheci até hoje ninguém mais belo do que ela. Daí porque tantos queriam ser dela filhos.

Acho que Jesus, antes de São Nicolau, já me deu um presente para todos os Natais, que é a benção de olhar para essa pessoa maravilhosa e dela ficar perto. E o chato é que eu não posso retribuir esse presente, pois nada se lhe equipara.
Aliás, o temo passará e eu não poderei mostrar com gestos ou palavras o quanto eu amo essa pessoa, mesmo porque o amor dela por mim é muito maior que o meu. Então resolvi escrever essa crônica para lhe dizer uma fração da verdade, enquanto posso dizer o que agora digo. Não fique triste minha mãe porque você não sabe quem é essa pessoa. Você é tão humilde que não acreditaria se eu lhe contasse…

Essa crônica, foi escrita por meu amado filho, há mais de 30 anos atrás. Resolvi transcrever porque a original já está se apagando. Filho amado, onde você meu amor estará com você. Te amarei para sempre. Mamãe.

Marminho faleceu em 26/05/2021.