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sábado 7 março 2026
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Giramundo – Entre Deus, a política e as sombras do caminho

Às vezes penso que o Brasil se tornou uma grande rua de domingo, daquelas em que um carro de som anuncia o arrebatamento enquanto outro distribui santinhos de candidato. O céu e o palanque dividem a mesma calçada, e nós, passantes meio perdidos, tentamos adivinhar onde termina Deus e onde começa o marketing. Difícil tarefa. O país parece ter criado um evangelho próprio, em que a parábola da multiplicação virou a multiplicação de curtidas, e o sermão da montanha foi substituído pelo sermão da live.

Outro dia, sentado na praça, vi um homem com a Bíblia numa mão e o celular na outra. Lia versículos ao mesmo tempo em que compartilhava as fake news mais improváveis. Falava de amor, mas cuspia ódio. Falava de perdão, mas julgava o próximo como se carregasse um tribunal inteiro dentro do peito. Olhei para ele e me perguntei: quem nos ensinou a confundir Deus com a raiva? Quem convenceu tanta gente de que o céu tem dono e que o inferno é o vizinho que pensa diferente?

Vivemos cercados por profetas improvisados, anunciadores compulsivos de um fim do mundo fabricado sob medida. Alguns até dizem: “estou do lado do bem”, enquanto cuidam para que o mal continue rendendo boas visualizações. Na política, então, a coisa ganhou contornos tragicômicos: há quem defenda a moral cristã com um fervor tão grande que até Deus, lá de cima, deve desconfiar das intenções. E desconfia com razão: muitos desses defensores da pátria e da fé acabam surgindo dias depois em fotos ensolaradas, em mansões de Miami, cuidando de suas dores existenciais com piscina aquecida e assessoria jurídica.

Mas o país segue aqui, firme, respirando. E é no cotidiano, onde a política não chega com tanta pompa, que descubro um Brasil mais real. Há um cheiro de pão quente abrindo as manhãs, crianças correndo atrás de borboletas sem ligar para quem votou em quem, vizinhos conversando na feira como se ainda existisse um fio de confiança entre as pessoas. Há ternura escondida na vida comum — e nenhuma live consegue destruir isso.

Se caminho cedo pela rua, vejo a cidade se vestindo de luz. O sol tímido toca o telhado das casas e parece lembrar que a esperança, às vezes, acorda antes de todos nós. Nessa hora, a fé deixa de ser arma e volta a ser abrigo. A política, sempre tão ruidosa, se torna apenas um rumor distante, como o sino velho de uma capela esquecida. É nesse instante que percebo: apesar das sombras que alguns insistem em espalhar, há uma claridade que resiste — e resiste bonita.

Mas não podemos negar: há quem viva da escuridão. Gente que mistura fé, ódio, política e algoritmo no mesmo copo e serve como se fosse verdade líquida. O Brasil virou um laboratório de experimentos gastronômicos estranhos: põem censura, revolta e doutrina no liquidificador, batem bem e esperam que a população engula sem torcer o nariz.

Quando alguém reclama, dizem que é frescura. Quando alguém questiona, acusam de comunismo, satanismo ou qualquer outro “ismo” usado como espada.

Ainda assim, há um Brasil teimoso que não se curva. Ele surge na professora que enfrenta a ignorância com paciência, nos jovens que se recusam a aceitar a mentira como destino, na senhora que vota com firmeza porque acredita que cidadania ainda vale alguma coisa. Surge no lavrador, no enfermeiro, no fotógrafo, no escritor — em toda gente simples que, silenciosamente, sustenta um país que os poderosos tentam destruir com ódio e ostentação.

E penso, com uma ponta de esperança e outra de ironia, que talvez a salvação venha justamente dessa gente que não aparece no noticiário. Porque panela que ferve demais queima o cozinheiro, e o país, cansado de ser servido com restos requentados de ideologia barata, começa a recusar o prato. Quem sabe o futuro não seja vegetariano — livre de tanto pão e circo mal temperado?

No fundo, a fé verdadeira continua no lugar de sempre: dentro das pessoas que ainda dizem bom dia, que ajudam o vizinho a carregar compras, que acolhem o desconhecido. E a política — bem, a política pode até continuar tropeçando nas próprias promessas, mas não é mais forte que a teimosia da vida real.

Fecho os olhos e imagino um Brasil onde a fé não sirva para ferir e a política não sirva para enriquecer quem já nasceu rico. Um país onde Deus não seja usado como senha de Wi-Fi ideológica. Um lugar onde as sombras só existam para lembrar que ainda há luz — e que essa luz, teimosa como é, sempre encontra uma fresta para passar.
E é nessa fresta que mora a esperança.

Talvez pequena, talvez cansada, talvez insegura.
Mas viva.
E, sobretudo, nossa.

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por Oswaldo Macedo  – professor e fotógrafo