Em certas salas de tribunal, o silêncio diz mais que as palavras. Houve um dia, no Egito, em que um homem justificou o assassinato do presidente Anwar Sadat com uma única frase: “Porque ele era seglar”. Quando o juiz lhe perguntou o que significava a palavra, a resposta foi um eco vazio: “Eu não sei”.
Cena semelhante se repetiu com o agressor do Nobel de Literatura Naguib Mahfouz, esfaqueado porque “escreveu contra a religião”. O réu, porém, nunca havia lido uma linha do autor. Noutro caso, um homem confessou um crime “por falta de fé” da vítima, mas admitiu: “Eu não sei ler nem escrever”.
Três episódios, uma mesma teia: a violência que nasce não da convicção, mas da ausência total dela. O ódio que floresce onde o conhecimento não chega. Esses homens não agiam por ideologia; eram instrumentos cegos, repetindo palavras que não compreendiam, executando ordens que nunca questionaram.
O peso seletivo da justiça moderna
Salta-se do passado ao presente, e o cenário global parece trocar as peças, mas não o jogo. Vivemos uma era de justiça seletiva e soberanias flexíveis. Recentemente, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em operação internacional acendeu um debate perigoso: até que ponto um país pode rasgar a soberania alheia e ditar, à força, seu próprio conceito de legalidade? É a justiça que fala apenas uma língua e veste uma única farda.
No extremo oposto, assistimos a guerras que arrastam populações civis para o abismo, com líderes cujas ações — testemunhadas em tempo real pelo mundo — não encontram tribuna à altura. Não há juiz que lhes pergunte “por que você matou?”. O silêncio, aqui, não pesa sobre quem decide, mas sobre quem sofre.
Assim, desenha-se um paradoxo cruel de nosso tempo: alguns são julgados por processos frágeis e geograficamente distorcidos; outros jamais o são, mesmo quando as evidências se acumulam diante dos olhos de todos.
A ignorância como arma política
No centro dessa equação está um custo invisível, porém devastador: a ignorância instrumentalizada. Não a simples falta de saber, mas a ignorância cultivada, usada como ferramenta de dominação. Uma sociedade que não investe em educação, que cerceia o acesso à informação e à reflexão crítica, não está apenas condenando seus cidadãos à pobreza intelectual. Está fabricando armas humanas: pessoas predispostas a odiar o que não conhecem, a temer o que não entendem, a obedecer sem perguntar.
Esse fenômeno não respeita fronteiras. Ele se adapta, viaja e se manifesta tanto no fanatismo que motiva um crime individual quanto na retórica desumanizante que justifica uma guerra. É o mesmo mecanismo que leva um jovem a cometer violência em nome de um conceito que não domina e um líder a ordenar uma invasão baseada em narrativas que não resistem ao exame da história.
Para onde caminhamos?
A pergunta que fica, tanto para nossas comunidades locais quanto para o mundo, é profundamente inquietante: quem decide, afinal, o que é justiça? E, mais aterrador: quem a executa sem saber o peso do que carrega nas mãos?
Quando a justiça perde sua base ética, seu norte moral, ela se reduz a um ritual oco: uma sala vazia com um martelo sobre a mesa. E do lado de fora, a humanidade — especialmente os mais vulneráveis, os que estão “no meio do caminho” — segue esperando por um julgamento que seja legítimo, equânime e, acima de tudo, consciente.
Cabe a nós, sociedade civil, imprensa e instituições, recusar a simplificação dos debates, combater a erosão do pensamento crítico e exigir que a justiça, em qualquer escala, seja sempre filha da razão, nunca da ignorância. O preço do contrário, a história já nos mostrou, é sempre pago pelos que menos podem pagar.
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por Oswaldo Macedo






















