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sábado 7 março 2026
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Comilanças Históricas e Atuais – 27 Noites

Comilanças Históricas e Atuais – 27 Noites

1 – NETFLIX
O ano de 1997 revelou vários olhares, de todas as cores, no meio vivo do processo de comunicação. Nesse mesmo ano, os aprendizes da possibilidade de sonhar, Reed Hasting e Marc Randolph, fundaram a Netflix, na Califórnia, bem próxima da preocupação tecnológica dos americanos.
O seu início, um tanto acanhado, gerava um processo de aluguel de DVD’s por meio do correio, sustentado por um modelo de assinatura participativa. A transição para o lançamento de Streamming e, na passagem dos horários, a criação de um conteúdo original, mergulhou a empresa nas estradas que a levaram à configuração de se tornar um entretenimento global.
Em 2007, com o serviço “transmissão de vídeo”, um lance que permitia aos assinantes, assistir a filmes e séries pela internet, de forma instantânea, foi a grande conquista, desenvolvida, passo a passo a partir do projeto inicial.
A decisão de produzir uma arte original surgiu da necessidade da Netflix de não depender de licença de estúdios exteriores para a projeção de filmes. Em 2012, aconteceu um fato regrado com suor e trabalho, o lançamento da primeira série criado pela Netflix, “Lilyhammer”, uma montagem própria.

II – O que foi Lilyhammer
A história de um gangster vivendo em Nova York, chamado Frank Tagliano que, após testemunhar contra seu chefe da máfia entra para o programa de proteção à testemunha e é enviado para morar em Lilyhammer, na Noruega.
O desenvolvimento do enredo leva consigo, em seus bolsos e pensamentos, as marcas de existência anterior do personagem. As suas tentativas de se adaptar à vida local esbarraram em seu passado criminoso. Assim, a sua esperança tomba nas bordas dos seus abismos íntimos, psíquicos e humanos.

III – Vinte e Sete Noites – A verdade
A realidade que viveu, olhou para o céu estrelado, mergulhou no passado e ofereceu credibilidade ao presente que estava escondido atrás dos movimentos das nuvens; mostrou as tintas que demarcaram os espaços transformados em caminhos por onde andou uma mulher chamada Natalia Kohen.
Natalia Kohen era uma artista plástica, escritora e colecionadora argentina, cuja trajetória de vida a aproximou do contexto mítico. Nascida na classe alta, desenvolveu o gosto pelas manifestações culturais, fato que levou a sua existência a marcar e gerar repercussão internacional, não pelo efeito de sua obra, mas por ter sido internada, contra a sua vontade, aos 87 anos, pela ganância do poder familiar. No ano de 2005, já viúva e idosa, Kohen propôs-se a financiar um Centro Cultural, no Paseo De La Infanta, junto ao arquiteto Clorindo Testa.
Essa iniciativa, segundo as suas filhas, indicava um descontrole financeiro, fato que as levaram a internar a mãe, em uma clinica de saúde mental, alegando demência frontotemporal, baseado em laudos médicos conduzidos pelo neurologista Facundo Manes.
Após mobilização e denuncia pública Kohen conseguiu libertar-se da clínica. O caso provocou debates legislativos e jurídicos sobre a tutela dos idosos e o perigo de sempre existir a possibilidade de internação involuntária.
Em 2006, ela teve sua incapacidade judicial provisoriamente suspensa, sendo nomeado um curador para verificar o uso de seus bens. No entanto, Kohen conseguiu manter o acesso à sua fortuna e viver a vida, mesmo considerada excêntrica, do seu jeito e com as características de sua forma de encarar as verdades impostas pelo mundo.
Natalia kohen faleceu aos 103 anos, em 2022, cercadas por amigos e artistas que a lembraram como a amiga de sempre e uma fiel representante da cultura e da garra argentina.

IV – Opressão familiar
Sua história serve de alerta para o universo contemporâneo: a apresentação sob o rótulo de “vulnerabilidade” pode se ocultar interesses financeiros ou familiares e, sob o tapete da “excentricidade”, pode haver uma legítima opressão da liberdade nascida no centro familiar.

V – A leitura literária
A escritora e psicanalista argentina, Natália Zito, dedicou ao caso o livro “Veintesiete Noches” lançado em 2021, retratando a história de Natalia Kohen, usando personagens fictícios. A partir da realidade e do livro da escritora, nasceu a inspiração para a produção do filme “27 Noites” lançado em 2025, de Daniel Hendler.

V – 27 Noites – o filme
Martha Hoffman é uma senhora de 83 anos, viúva e rica, vivendo de maneira autêntica e para muitos, excêntrica. Ela é uma navegante das noites que poetizam os mistérios, os gritos saídos da garganta dos artistas, a música criada na fermentação da emoção daqueles que sonorizam a dor e a solidão, marcando os palcos do mundo com as sombras das paixões, que não foram citadas ou faladas, no entanto, centenas de violinos tentam desvendar os segredos gerados e guiados pelo calor do amor vivo.

VI – Personalidade de Martha
A personalidade de Martha é forte, parece um tambor repicando os suspiros da individualidade. As suas mãos sempre tentaram ajudar os necessitados, os amantes perdidos na imensidão dos desertos. Ela costumava, por prazer ou pelo poder, investir em negócios mascarados pelas incertezas do mercado, porém, mantendo uma vida orientada pela intensidade, o que provocava uma irritação sórdida em suas filhas, que sonhavam com a herança paralisada no fim de um túnel longo e inconsequente.

VII – Atitude das filhas
As filhas Myrian e Olga, alegaram que a mãe sofria de demência e não conseguia, nem tinha condições, de administrar o seu patrimônio. Elas apresentaram laudos médicos duvidosos, assinados por profissionais da psiquiatria que, na ausência da veracidade dos acontecimentos, nunca examinaram o existir de Martha.

VIII – Internação
Dessa forma, na esteira da mentira e do desespero econômico que inebriaram o futuro, conseguiram internar a mãe em uma instituição psiquiátrica. Vivendo num lugar desconhecido, perdida nos corredores extensos e desertos, Martha se via privada da convivência com amigos e com a sua própria liberdade:
Tempo sem tempo
Pensamentos batendo
Em paredes nuas
Médicos sérios,
Sisudos,
Espantados,
Diante de lendas montadas,
No sopro da inexistência.

IX – A clínica
A frustração decorava todas as incoerências da chamada clínica, a sensação de confinamento varria o chão com uma vassoura desnorteada, mas Martha não se entregava, não erguia as mãos em sinal de abandono.
Através dos visitantes que saiam de suas casas para conversar com os parentes deprimidos em si mesmos, Martha conseguiu enviar uma mensagem ao amigo e amante, Bernardo Girves. O destinatário da informação perdeu seu fôlego, seu coração registrou a presença da verdade presa em uma pedra, no fundo do mar.

X – Atitude
O seu pensamento da cor da humanidade ultrapassou a divisória da normalidade e assim, organizou um protesto em frente dos portões da clínica, juntamente com todos os amigos e conhecidos, da mulher que sempre conseguiu ministrar uma solução para resolver os problemas do próximo. Sob a pressão e protesto dos manifestantes, e sem as provas sólidas da suposta doença, as autoridades médicas resolveram liberar a paciente Martha.
Liberdade com perfume de flores.

O andar medido e contado.
A direção anunciada pelas
Asas das borboletas.
Mas as borboletas não apareceram.
Não voaram,
Nem se encontraram.
A liberdade de Martha, considerando a palavra como símbolo da ausência que enobrece, não aconteceu de fato. Ela passou a viver numa espécie de recolhimento domiciliar, sob a vigilância exigida pelas filhas. O tribunal de justiça argentino nomeou o psiquiatra Leandro Casares, para avaliar se Martha realmente enfrentava uma demência séria e visível.

XI – O psiquiatra e perito
Casares descobriu uma série de irregularidades no processo de internação: um dos médicos que assinou o diagnóstico, Dr. Narvaja, se recusava a apresentar os exames realizados, fornecia respostas evasivas, inconsistentes, sem base científica ou conhecimento específico da área psiquiátrica.
A outra médica, especialista em psiquiatria, que também assinou o diagnóstico admitiu, sem avaliar a sua capacidade como profissional, de nunca ter examinado a paciente, jamais a viu em seu consultório ou na clínica, onde a personagem estivera internada.
XII – A médica de outro tempo
A antiga médica de Martha, Dra. Rothman, confirmou perante as investigações em andamento que, em momento algum, durante anos de tratamento, percebera alguma evidência clínica que justificasse um quadro de demência, no olhar, gestos, raciocínio da personagem em questão.
O tempo resolveu passar pelas aberturas das janelas. Casares, cumprindo a sua tarefa, aproximou-se de Martha, que o recebeu com franqueza e com uma dose de curiosidade pelo seu trabalho. Essa relação, entrelaçada pela empatia e confiança, levaram o perito Casares, a questionar as estruturas, que sustentaram o caso, e também, as próprias regras sociais que conseguem restringir a vida dos idosos.

XIII – Cinema e sonho
Nós sabemos que a arte cinematográfica trabalha com a simbologia que encadeia o tema e os assuntos. Em certo momento do filme, Casares resolve acompanhar Martha até o Centro Cultural onde seus amigos se reuniam. Nesse encontro ele redescobre o conceito da alegria, da liberdade, da compreensão do porquê que a existência da beleza faz parte da vida. A energia do encontro penetra em seu corpo gelado e pesado, um homem que se reconhece na verificação da sua atuação como psiquiatra e perito da justiça; a sua existência começa a se alterar, a sua alma sentiu um calor que nunca sentira antes.

O tribunal percebeu que o psiquiatra, funcionário da justiça, ultrapassou os limites profissionais. O seu chefe fala com o adjunto, o adjunto conversa com o escrivão, o escrivão consulta, por crença pessoal, uma coruja que habitava uma torre abandonada, e, a decisão partiu de uma boca cheia de dentes: Casares está fora do caso.

XIV – A escrita
Porém, em qualquer lugar desse mundo, o que está escrito sempre refletiu a possibilidade da existência da razão, e, sendo assim, a opinião do perito Casares, é decisiva para a elaboração do caso e a sua solução, perante o supremo tribunal. Durante a tão esperada audiência de mediação, Martha conseguiu negociar os termos de sua liberdade.

XV – Os termos
O acordo impõe que ela não poderá ser internada novamente, sem a autorização do tribunal. Martha está livre para manter contato com seus amigos. Embora perca parte de sua autonomia financeira, um administrador é nomeado para supervisionar seus gastos, função que recai sobre Casares.

XVI – A costura final
O desfecho do filme conseguiu cruzar a derrota e a vitória. Martha não recupera a sua liberdade econômica, mas conquista o direito de viver a sua própria aventura nesse mundinho de todos os dias. A presença metafórica do tribunal tem, em suas mãos, o cuidado de dissecar uma incógnita: até que ponto a vida de uma pessoa pode existir sem a interferência dos outros.

XVII – O filme dentro do mistério das artes
Não há em “27 Noites”, que foi o tempo de internação da personagem, respostas fáceis e escritas com letras maiúsculas. O eixo narrativo nos leva a entender que Martha nunca fora vítima de demência: a loucura atribuída a ela foi um grito de ganância das suas filhas. Olhando no espelho da realidade, Martha se recusa a atrofiar seu comportamento, segundo as regras estabelecidas pela sociedade em relação ao idoso, de um modo geral, esbarraremos num poço de lágrimas.

O filme “27 Noites” consegue tirar a toalha da mesa para revelar a história de uma mulher injustiçada que, na bandeja em que se colocam os copos, existe um conflito de gerações e a tentativa social que luta para domesticar, de chicote nas mãos, quem tenta fugir as suas regras.
O final do filme, pintado de cores feitas de pó de arroz, mas tentando mostrar uma força que não existe e uma sociedade que se desbota de medo da liberdade do próximo ou do outro que representa oposição de pensamentos.
Neste nosso universo
Cheio de luz,
Quem realmente precisa ser tratado.
Martha que se recusa a obedecer
Ou a voz da ignorância
Que mora numa casa abandonado
Pelo João de Barro.

Dados:
Streamming: fluxo contínuo e o processo tecnológico que permite a transmissão de áudio e vídeo pela internet.
Mítico: palavra relacionada a mitos e lendas, usada para descrever algo fantástico, imaginário ou fabuloso como, a filosofia que se manifesta pelos lábios de Martha.
Demência Frontotemporal: um dos maiores astros de Hollywood, Bruce Willis conhecido por filmes como “O Sexto Sentido”, “Duro de Matar”, foi diagnosticado, aos 67 anos, com demência frontotemporal. É uma doença neurodegenerativa e incurável. Essa demência causa problemas de comunicação, mudança no comportamento, na personalidade e nos movimentos que possibilitam a sondagem do universo.
Excentricidade: maneira de pensar ou agir que foge aos padrões comuns, convencionais: marcada ela originalidade, extravagância e, alguns profissionais dizem que os pacientes estão fora do centro.

RECEITA
EMPANADAS ARGENTINAS

Ingredientes:
Massa: 250g Farinha Fina Tipo I (sem fermento); 50g margarina ou manteiga sem sal; ⅔ xícara chá de água; 1 gema para pincelar.
Recheio: 250g de carne moída; ½ xícara (chá) de pimentões; 5 azeitonas (picadas); 3 colheres de sopa de milho; 1 ovo cozido; 2 dentes de alho; Sal Pimenta do reino.
Ou recheie a seu gosto.

Modo de Preparo:
Recheio: Em uma panela, refogue o alho rapidamente, junte a carne moída, tempere com sal e pimenta do reino e frite rapidamente a carne. Junte as azeitonas, milho, tomate e pimentões, misture bem e deixe a carne fritar e secar toda a “água”, adicione o ovo cozido e reserve para esfriar.

Massa: Em um recipiente, adicione a Farinha de Trigo Fina, margarina ou manteiga sem sal e misture até que esteja incorporada com a farinha. Junte a água aos poucos e sove até que você consiga uma massa homogênea que não grude nas mãos. Abra a massa bem fina com ajuda de um rolo e corte em círculos, depois adicione uma colher de sopa de recheio e feche como um pastel. Pincele com uma gema e leve as empanadas para assar em forno preaquecido à 180ºC por 30 minutos ou até dourar.