{"id":97342,"date":"2026-01-30T00:12:46","date_gmt":"2026-01-30T03:12:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/?p=97342"},"modified":"2026-01-30T12:32:54","modified_gmt":"2026-01-30T15:32:54","slug":"giramundo-entre-deus-a-politica-e-as-sombras-do-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/giramundo-entre-deus-a-politica-e-as-sombras-do-caminho\/","title":{"rendered":"Giramundo &#8211; Entre Deus, a pol\u00edtica e as sombras do caminho"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes penso que o Brasil se tornou uma grande rua de domingo, daquelas em que um carro de som anuncia o arrebatamento enquanto outro distribui santinhos de candidato. O c\u00e9u e o palanque dividem a mesma cal\u00e7ada, e n\u00f3s, passantes meio perdidos, tentamos adivinhar onde termina Deus e onde come\u00e7a o marketing. Dif\u00edcil tarefa. O pa\u00eds parece ter criado um evangelho pr\u00f3prio, em que a par\u00e1bola da multiplica\u00e7\u00e3o virou a multiplica\u00e7\u00e3o de curtidas, e o serm\u00e3o da montanha foi substitu\u00eddo pelo serm\u00e3o da live.<\/p>\n<p>Outro dia, sentado na pra\u00e7a, vi um homem com a B\u00edblia numa m\u00e3o e o celular na outra. Lia vers\u00edculos ao mesmo tempo em que compartilhava as fake news mais improv\u00e1veis. Falava de amor, mas cuspia \u00f3dio. Falava de perd\u00e3o, mas julgava o pr\u00f3ximo como se carregasse um tribunal inteiro dentro do peito. Olhei para ele e me perguntei: quem nos ensinou a confundir Deus com a raiva? Quem convenceu tanta gente de que o c\u00e9u tem dono e que o inferno \u00e9 o vizinho que pensa diferente?<\/p>\n<p>Vivemos cercados por profetas improvisados, anunciadores compulsivos de um fim do mundo fabricado sob medida. Alguns at\u00e9 dizem: &#8220;estou do lado do bem&#8221;, enquanto cuidam para que o mal continue rendendo boas visualiza\u00e7\u00f5es. Na pol\u00edtica, ent\u00e3o, a coisa ganhou contornos tragic\u00f4micos: h\u00e1 quem defenda a moral crist\u00e3 com um fervor t\u00e3o grande que at\u00e9 Deus, l\u00e1 de cima, deve desconfiar das inten\u00e7\u00f5es. E desconfia com raz\u00e3o: muitos desses defensores da p\u00e1tria e da f\u00e9 acabam surgindo dias depois em fotos ensolaradas, em mans\u00f5es de Miami, cuidando de suas dores existenciais com piscina aquecida e assessoria jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Mas o pa\u00eds segue aqui, firme, respirando. E \u00e9 no cotidiano, onde a pol\u00edtica n\u00e3o chega com tanta pompa, que descubro um Brasil mais real. H\u00e1 um cheiro de p\u00e3o quente abrindo as manh\u00e3s, crian\u00e7as correndo atr\u00e1s de borboletas sem ligar para quem votou em quem, vizinhos conversando na feira como se ainda existisse um fio de confian\u00e7a entre as pessoas. H\u00e1 ternura escondida na vida comum \u2014 e nenhuma live consegue destruir isso.<\/p>\n<p>Se caminho cedo pela rua, vejo a cidade se vestindo de luz. O sol t\u00edmido toca o telhado das casas e parece lembrar que a esperan\u00e7a, \u00e0s vezes, acorda antes de todos n\u00f3s. Nessa hora, a f\u00e9 deixa de ser arma e volta a ser abrigo. A pol\u00edtica, sempre t\u00e3o ruidosa, se torna apenas um rumor distante, como o sino velho de uma capela esquecida. \u00c9 nesse instante que percebo: apesar das sombras que alguns insistem em espalhar, h\u00e1 uma claridade que resiste \u2014 e resiste bonita.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos negar: h\u00e1 quem viva da escurid\u00e3o. Gente que mistura f\u00e9, \u00f3dio, pol\u00edtica e algoritmo no mesmo copo e serve como se fosse verdade l\u00edquida. O Brasil virou um laborat\u00f3rio de experimentos gastron\u00f4micos estranhos: p\u00f5em censura, revolta e doutrina no liquidificador, batem bem e esperam que a popula\u00e7\u00e3o engula sem torcer o nariz.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m reclama, dizem que \u00e9 frescura. Quando algu\u00e9m questiona, acusam de comunismo, satanismo ou qualquer outro &#8220;ismo&#8221; usado como espada.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 um Brasil teimoso que n\u00e3o se curva. Ele surge na professora que enfrenta a ignor\u00e2ncia com paci\u00eancia, nos jovens que se recusam a aceitar a mentira como destino, na senhora que vota com firmeza porque acredita que cidadania ainda vale alguma coisa. Surge no lavrador, no enfermeiro, no fot\u00f3grafo, no escritor \u2014 em toda gente simples que, silenciosamente, sustenta um pa\u00eds que os poderosos tentam destruir com \u00f3dio e ostenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E penso, com uma ponta de esperan\u00e7a e outra de ironia, que talvez a salva\u00e7\u00e3o venha justamente dessa gente que n\u00e3o aparece no notici\u00e1rio. Porque panela que ferve demais queima o cozinheiro, e o pa\u00eds, cansado de ser servido com restos requentados de ideologia barata, come\u00e7a a recusar o prato. Quem sabe o futuro n\u00e3o seja vegetariano \u2014 livre de tanto p\u00e3o e circo mal temperado?<\/p>\n<p>No fundo, a f\u00e9 verdadeira continua no lugar de sempre: dentro das pessoas que ainda dizem bom dia, que ajudam o vizinho a carregar compras, que acolhem o desconhecido. E a pol\u00edtica \u2014 bem, a pol\u00edtica pode at\u00e9 continuar trope\u00e7ando nas pr\u00f3prias promessas, mas n\u00e3o \u00e9 mais forte que a teimosia da vida real.<\/p>\n<p>Fecho os olhos e imagino um Brasil onde a f\u00e9 n\u00e3o sirva para ferir e a pol\u00edtica n\u00e3o sirva para enriquecer quem j\u00e1 nasceu rico. Um pa\u00eds onde Deus n\u00e3o seja usado como senha de Wi-Fi ideol\u00f3gica. Um lugar onde as sombras s\u00f3 existam para lembrar que ainda h\u00e1 luz \u2014 e que essa luz, teimosa como \u00e9, sempre encontra uma fresta para passar.<br \/>\nE \u00e9 nessa fresta que mora a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Talvez pequena, talvez cansada, talvez insegura.<br \/>\nMas viva.<br \/>\nE, sobretudo, nossa.<\/p>\n<p>_____________<br \/>\npor <strong>Oswaldo Macedo<\/strong>\u00a0 &#8211;<em> professor e fot\u00f3grafo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes penso que o Brasil se tornou uma grande rua de domingo, daquelas em que um carro de som anuncia o arrebatamento enquanto outro distribui santinhos de candidato. O c\u00e9u e o palanque dividem a mesma cal\u00e7ada, e n\u00f3s, passantes meio perdidos, tentamos adivinhar onde termina Deus e onde come\u00e7a o marketing. Dif\u00edcil tarefa. 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