{"id":60448,"date":"2023-05-13T00:15:54","date_gmt":"2023-05-13T03:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/?p=60448"},"modified":"2023-05-13T13:27:19","modified_gmt":"2023-05-13T16:27:19","slug":"comilancas-historicas-e-atuais-os-gritos-do-silencio-o-massacre-de-um-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/comilancas-historicas-e-atuais-os-gritos-do-silencio-o-massacre-de-um-povo\/","title":{"rendered":"Comilan\u00e7as Hist\u00f3ricas e Atuais &#8211; Os gritos do sil\u00eancio: o massacre de um povo"},"content":{"rendered":"<p><strong>I &#8211; Um filme amplo<\/strong><br \/>\nH\u00e1 filmes que surgem na copa de um emaranhado de conceitos paralelos. \u201cOs gritos do sil\u00eancio\u201d \u00e9 um filme que machuca, desassossega, afasta a cren\u00e7a que ronda o futuro; ao mesmo tempo que se consagra como espet\u00e1culo cinematogr\u00e1fico, que nos exige algumas sondagens em estradas paralelas para compreend\u00ea-lo.<br \/>\nAs cenas do filme justificam a sua exist\u00eancia na respira\u00e7\u00e3o produzida pelo jornalismo. A profiss\u00e3o de jornalista consiste na abertura da cortina que divide os olhos a humanidade. Ele investiga um fato, um acontecimento, colhe opini\u00f5es, organiza-as e monta uma ponte entre o drama e o leitor. Essas not\u00edcias, depois da colheita, podem ir para a impress\u00e3o, radiofonia, internet, televis\u00e3o. A grafia dos fatos, ou o in\u00edcio do jornal\u00edsmo vem de 1041, em Pequim, no folheto Kayan.<\/p>\n<p>Nessas beiradas de caminho surge a realidade, uma esp\u00e9cie de cola que rasteja no ch\u00e3o, afastando os homens dos sonhos, das nuvens, do contexto, da imagina\u00e7\u00e3o. A realidade d\u00e1 os bra\u00e7os \u00e0 religi\u00e3o, ci\u00eancia, arte, filosofia, onde, exercendo um trabalho fant\u00e1stico traduz e exemplifica a constru\u00e7\u00e3o do mundo pelo homem.<\/p>\n<p>No desenvolvimento pela sobreviv\u00eancia humana, os homens uniram-se em povoados, vilas, cidades pequenas, cidades grandes, movidas por engrenagens oleificadas pela pol\u00edtica, economia, cultura, industrializa\u00e7\u00e3o, trabalho, produ\u00e7\u00e3o, consumo, proletariado, greves, conflitos, guerras. Essas caracter\u00edsticas que marcaram o desenvolvimento humano, refletiram-se no espelho sob o r\u00f3tulo de sociedade.<\/p>\n<p>O peso real do cargo nas costas do homem, permitiu que, ao longo dos s\u00e9culos, a fic\u00e7\u00e3o o autorizasse a elaborar a liberdade da imagina\u00e7\u00e3o, o direito de construir hist\u00f3rias que, embora sejam semelhantes \u00e0 realidade, edificam mundos poss\u00edveis, amor poss\u00edvel, felicidade poss\u00edvel, utopias que ligam a vida e o sonho como fez Thomaz Morus em sua obra \u201cUtopia\u201d, publicada em 1516.<\/p>\n<p>Na ultrapassagem da ponte, encontramos no meio do caminho a manifesta\u00e7\u00e3o da arte que mora no lado esquerdo do homem, um estoque cultural envolvendo emo\u00e7\u00f5es concretas e abstratas; emo\u00e7\u00f5es vasadas em nosso \u201ceu\u201d gerado pelo mundo das ideias vestidas com a roupa do sentimento. Esse novo ser chama-se arte.<\/p>\n<p><strong>II \u2013 Camboja hist\u00f3rica<\/strong><br \/>\nO mundo olhava assustado para a regi\u00e3o do Camboja; ao passar dos dias, durante o cair das folhas mais altas, o Camboja tomava o formato de uma panela de press\u00e3o. A guerra explodiu a partir de uma torre erguida no espa\u00e7o, percorrendo cada buraco do territ\u00f3rio localizado no sul da Pen\u00ednsula Indochina, no Sudeste Asi\u00e1tico, fazendo fronteira com a Tail\u00e2ndia, com o Laos e com o Vietn\u00e3. A Guerra Civil foi devassadora, levando o universo a temer, a n\u00edvel de viol\u00eancia, que um conflito pode realizar em t\u00e3o pouco tempo, pois essa loucura terminou em 1975.<\/p>\n<p><strong>III \u2013 Os Gritos do Sil\u00eancio e a tem\u00e1tica da animaliza\u00e7\u00e3o do homem<\/strong><br \/>\nNo final da guerra de 1975, Pol Pot, organizador do partido Khmer Vermelho, assume o poder no Camboja. Em seus sonhos de psicopata pol\u00edtico, cria a chamada utopia agr\u00e1ria, organizando centenas de Fazenda de Trabalho For\u00e7ado ou Pris\u00f5es Governamentais.<\/p>\n<p>Em seu c\u00e9rebro doentio, Pol Pot provoca o esvaziamento das cidades, fazendo a popula\u00e7\u00e3o urbana se instalar em suas fazendas de trabalho for\u00e7ado. O trabalho agr\u00e1rio era realizado em regime de castigos, torturas, p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00f5es. Em sua pol\u00edtica irrespons\u00e1vel, procurou destruir os centros urbanos, fechando hospitais, monast\u00e9rios, escolas, f\u00e1bricas; fechou os jornais e proibiu a liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>O seu projeto pol\u00edtico perseguiu religiosos, os intelectuais foram massacrados, destruiu os caminhos trilhados pelos monges budistas, investiu contra as influencias estrangeiras, as etnias \u00e9tnicas representadas pelos chineses, vietnamitas, cham do sudeste asi\u00e1tico foram expulsos ou assassinados. O genoc\u00eddio \u00e9tnico, as mortes nos campos de trabalho podem ter atingido a cifra de dois milh\u00f5es e meio de pessoas.<\/p>\n<p>No final de 1979, for\u00e7as vietnamitas invadiram o pa\u00eds, derrubaram o triste governo de Pol Pot que, a partir desse momento, embrenhou-se nas matas do Camboja, numa cabana no meio da mata fechada. Na madrugada de 1998, no sil\u00eancio do universo e no coaxar dos sapos, foi encontrado morto. Teve um infarto enquanto dormia. \u00c9 esse per\u00edodo, essa fuga do campo para a cidade, a viol\u00eancia, as mortes injustificadas que transformaram \u201cOs Gritos do Sil\u00eancio\u201d, numa mistura de fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e document\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>IV \u2013 Sempre h\u00e1 um in\u00edcio<\/strong><br \/>\nO filme \u201cOs Gritos do Sil\u00eancio\u201d nasceu do artigo jornal\u00edstico \u201cA morte e a via de Dith Pran\u201d, publicado em uma revista, pelo jornalista Sydney Schanberg, em 1980. O roteiro, um texto de aproximadamente 300 p\u00e1ginas, foi escrito pelo ator Bruce Robinson que, partindo de um artigo jornal\u00edstico, conseguiu trabalhar os efeitos tr\u00e1gicos de uma guerra absurda e, paralelamente, apresentar uma hist\u00f3ria de amor, amizade e coragem entre dois profissionais preocupados com o destino de um mundo contorcido em si mesmo,<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-60450 alignleft\" src=\"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Untitled-2.jpg\" alt=\"\" width=\"330\" height=\"488\" srcset=\"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Untitled-2.jpg 330w, https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Untitled-2-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/>V \u2013 O filme<\/strong><br \/>\n\u201cOs Gritos do Sil\u00eancio\u201d \u00e9 um filme que segue uma linearidade inabal\u00e1vel. O seu enredo caminha no acompanhamento dos passos do jornalista Sydney Schanberg, correspondente do jornal New York Times, chegando ao Camboja para fazer a cobertura jornal\u00edstica sobre a bestialidade humana que brota nas pedras das ruas daquele pa\u00eds. Em todo jornal, a maioria dos jornalistas encarregados de uma miss\u00e3o t\u00e3o incompreens\u00edvel, precisa da colabora\u00e7\u00e3o de um rep\u00f3rter local para colaborar na tradu\u00e7\u00e3o, fotografias, identifica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica onde os conflitos acontecem. No caso singular dos Gritos sonoros da regi\u00e3o asi\u00e1tica, o jornalista americano encontra o fot\u00f3grafo Dith Pran, um cambojano casado, tem filhos e a mulher espera mais um beb\u00ea. Pois bem, Dith procura deixar a fam\u00edlia em seguran\u00e7a e embrenha-se no trabalho do jornalista de Nova York, tornando-se no alter ego da imprensa internacional.<\/p>\n<p><strong>VI &#8211; Os Gritos no ru\u00eddo tr\u00e1gico do sil\u00eancio.<\/strong><br \/>\nO desenvolvimento do filme abarca a cobertura jornal\u00edstica, a viol\u00eancia da invas\u00e3o do Camboja, as ruas espremidas pelos corpos sem vida, os atentados terroristas, as bombas americanas caindo em lugares mal planejados, o desespero da popula\u00e7\u00e3o, os gritos dos oprimidos e o sil\u00eancio do aloprado Pol Pot, l\u00edder do grupo Comunista Khmer Vermelho, o reconhecido (KV).<\/p>\n<p>Para se entender o contexto do filme, mesmo que sutilmente, torna-se necess\u00e1rio passar pela porta da guerra do Vietn\u00e3, uma disputa sem bola no campo, sem juiz, sem arquibancada. No meio do campo, sem gra\u00e7a em nenhum rosto, o time do capitalismo enfrentaria a equipe do comunismo. O jogo durou 20 anos e muitas crian\u00e7as n\u00e3o conseguiram falar nada, morreram antes do nascimento.<\/p>\n<p>Nesse clima, \u201cOs Gritos\u201d documentam a conquista do Camboja pelo regime Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot.<\/p>\n<p><strong>VII \u2013 O rompimento<\/strong><br \/>\nA pol\u00edtica de Pol Pot, a transpar\u00eancia de um comando que mais aproximou da estupidez, resolve expulsar diplomatas estrangeiros, destruir os intelectuais, fechar escolas e universidades, esvaziar os centros urbanos, transferindo seus habitantes para os campos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, ou seja, colocar o desenvolvimento cultural do mundo, numa casquinha de sorvete.<\/p>\n<p>Esse pequeno peda\u00e7o de tempo deu o sinal para que o jornalista Sydney Schaberg deveria deixar o pa\u00eds. Ele tentou, a todo custo, levar o amigo Dith Pran; chegou a falsificar um passaporte, mas a foto, tirada em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, apagou-se antes do embarque e Dith Pran teve que permanecer no Camboja. Nos Estados Unidos, Sydney enviou centenas de cartas a Cruz Vermelha e entidades semelhantes, tentando a libera\u00e7\u00e3o do amigo.<\/p>\n<p>Os seus artigos foram premiados em solo americano e no mundo; beneficiando-se com o recebimento do \u201cPulitzer\u201d de jornalismo, na classifica\u00e7\u00e3o de Reportagem Internacional. No entanto o seu cora\u00e7\u00e3o estava no Camboja; os seus sentimentos e emo\u00e7\u00f5es fixavam-se na imagem do amigo que permanecera no Camboja.<\/p>\n<p><strong>VIII &#8211; Canto a Dith Pran<\/strong><br \/>\nDith \u00e9 preso no Camboja e enviado a uma Fazenda de Concentra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO sofrimento n\u00e3o passa por hor\u00e1rio definido; a fome transforma-se na realidade dos segundos; a tortura vinha sem motivos aparentes. Para sobreviver, no corpo de um processo de escravid\u00e3o, se alimentava de besouros, escorpi\u00f5es, e bebe o sangue das vacas que pastorejavam nas proximidades.<\/p>\n<p>Um dia com cara de tempo perdido, no r\u00e1dio de um dos guardas, da fazenda, o som dos Beatles invade a alma de Dith, dando-lhe a coragem necess\u00e1ria para fugir, com as for\u00e7as da alma. Dith caminha por v\u00e1rios dias entre restos mortais e, sem perceber a dire\u00e7\u00e3o, chega a Tail\u00e2ndia.<\/p>\n<p><strong>IX \u2013 Sydney e Dith<\/strong><br \/>\nA m\u00e1quina de escrever, as fotos reveladas em quartos de hot\u00e9is baratos, a explos\u00e3o das bombas, as rajadas emitidas pelas armas de fogo, os gritos, os corpos tombando, as dores misturadas com o medo, foram elementos que constru\u00edram a amizade, o companheirismo, a confian\u00e7a, a esperan\u00e7a e os sapatos gastos da xenofobia, precisando trocar o solado.<\/p>\n<p>\u201cImagine\u201d, algumas frases de Lennon:<br \/>\nN\u00e3o existe nenhum motivo para matar ou morrer.<br \/>\nImagine todas as pessoas vivendo em paz.<br \/>\nImagine que n\u00e3o existem posses.<br \/>\nImagine uma irmandade dos homens.<br \/>\nO mundo viver\u00e1 como um s\u00f3.<\/p>\n<p>O filme \u201cOs Gritos do Sil\u00eancio\u201d termina num longo abra\u00e7o, numa l\u00e1grima parada na complexidade do olhar, na cabe\u00e7a de Pran encostada no peito de Sydney. E o universo est\u00e1tico em seu movimento espantado, mas em \u00eaxtase, pela resist\u00eancia da arte.<\/p>\n<p><strong>RECEITA<\/strong><br \/>\n<strong>Fil\u00e9 preparado \u00e0 moda khmer (ou cambojana)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ingredientes:<\/strong> 1 kg. de carne do boi (a melhor op\u00e7\u00e3o \u00e9 o fil\u00e9 mignon, mas pode ser alcatra), 1 colher de ch\u00e1 de sal, 2 colheres de sopa de molho de ostra e a mesma quantidade de molho de peixe, \u00bd piment\u00e3o vermelho e \u00bd piment\u00e3o amarelo, 2 cebolas brancas e 1 cebola roxa, sal, a\u00e7\u00facar e pimenta tipo chili desidratada. \u00c0 parte: 4 dentes de alho e um peda\u00e7o de gengibre delgado medindo 10 cm. (30 a 50 gr.), \u00bd x\u00edcara de caf\u00e9 de \u00f3leo, de prefer\u00eancia \u00f3leo de coco.<\/p>\n<p><strong>Modo de Fazer:<\/strong> Limpe e corte o fil\u00e9 ao meio no sentido longitudinal. Corte pequenos bifinhos, bem finos \u2013 da espessura de 70 mm. Tempere com a mistura j\u00e1 preparada de sal e molhos de ostra e de peixe. Deixe reservado por 30 minutos para pegar tempero.<br \/>\nCorte os piment\u00f5es e cebolas em fatias. Corte bem mi\u00fado o alho e o gengibre. Reserve.<\/p>\n<p>Em uma panela bem grande aque\u00e7a um fio de \u00f3leo e torre o alho e o gengibre. Retire-os da panela e use-a de novo, sem lavar, juntando mais um pouco de \u00f3leo, para fritar os fil\u00e9s. V\u00e1 fritando aos poucos, para n\u00e3o dar \u00e1gua, afastando os que j\u00e1 mudaram de cor para as laterais da panela e colocando os peda\u00e7os crus no fundo. Quando estiverem corados, retire-os e reserve-os em local protegido de vento. Na mesma panela, junte mais um pouquinho de \u00f3leo e passe os legumes, at\u00e9 ficarem macios. Por \u00faltimo, junte 1 colher de ch\u00e1 de a\u00e7\u00facar aos legumes, deixe derreter, misture bem e tempere com sal e pimenta. Junte a carne e o alho com o gengibre. Misture tudo.<\/p>\n<p>Uma boa op\u00e7\u00e3o para acompanhar esta carne \u00e9 com macarr\u00e3o tipo yakisoba. Esquente 1 \u00bd litros de \u00e1gua em uma panela alta. Jogue o macarr\u00e3o ( 50 gr. por pessoa) e deixe cozinhar. Vigie o ponto \u2013 quando der para partir com a colher est\u00e1 bom. Escorra e jogue a \u00e1gua fora. Na mesma panela esquente 3 colheres de molho para yakisoba e passe o macarr\u00e3o, misturando bem.<\/p>\n<p>Sirva quente, em uma travessa larga, colocando o macarr\u00e3o por baixo e a carne por cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Por <strong>Adriana Padoan<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I &#8211; Um filme amplo H\u00e1 filmes que surgem na copa de um emaranhado de conceitos paralelos. \u201cOs gritos do sil\u00eancio\u201d \u00e9 um filme que machuca, desassossega, afasta a cren\u00e7a que ronda o futuro; ao mesmo tempo que se consagra como espet\u00e1culo cinematogr\u00e1fico, que nos exige algumas sondagens em estradas paralelas para compreend\u00ea-lo. 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