{"id":49059,"date":"2021-08-14T00:48:49","date_gmt":"2021-08-14T03:48:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/?p=49059"},"modified":"2021-08-14T00:48:49","modified_gmt":"2021-08-14T03:48:49","slug":"leitura-de-taubate-geisel-e-o-messias-errado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/leitura-de-taubate-geisel-e-o-messias-errado\/","title":{"rendered":"Leitura de Taubat\u00e9 &#8211; Geisel e o Messias errado"},"content":{"rendered":"<p>O Presidente Geisel, no primeiro minuto de seu governo prometeu uma abertura lenta, gradual e segura. As suas palavras n\u00e3o disseram nada que significasse um grande compromisso com a liberdade. A l\u00edngua portuguesa teme, um pouquinho s\u00f3, a palavra abertura, mas n\u00e3o se trata de uma palavra c\u00f4moda, tranquila. Ela nasce l\u00e1 no latim, foi usada por Nero no sentido de abrir algu\u00e9m, desenhar um buraco perto do umbigo, escalavrar o rego de um crist\u00e3o, rachar um homem, uma ideologia, ao meio; furar uma elegante cova nos fundos do Coliseu.<\/p>\n<p>O nosso presidente respirou por respirar, dizendo que a tal abertura seria lenta. O voc\u00e1bulo lento tem um p\u00e9 quebrado que diz brando, suave; tem uma perna dando a ideia de coisa esticada, vagarosa, arrastada. Em termos de governo, um projeto administrativo aponta para um vazio, um nada versus nada. As s\u00edlabas da palavra gradual unidas em si, refere-se a uma vontade que aumenta ou diminui, dependendo, \u00e9 claro, do peso progressivo da diarreia.<\/p>\n<p>O termo segura \u00e9 de uso militar e, por isso ramifica-se podendo ser lavrar um peda\u00e7o de terra ou pele; procurar evitar surpresas desnecess\u00e1rias, fabrica\u00e7\u00e3o de barris, debastar os atos, as a\u00e7\u00f5es, as execu\u00e7\u00f5es criativas pouco a pouco. O nosso cora\u00e7\u00e3o de povo entendeu o que partiu daquele rosto s\u00e9rio, feio; o sentido de tudo construiu uma frase na cabe\u00e7a do oper\u00e1rio: \u201cFarei o que der para ser feito, nada al\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>No ano de 1975, num gesto gentil, quase humano, acabou com a censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa escrita. Na outra ponta da bondade, aumentou a censura ao r\u00e1dio e televis\u00e3o. A sua preocupa\u00e7\u00e3o transparente focava na imagem do general que prendeu um estudante, daqueles bem espertos, mantenedor de um acervo de livros comunistas em sua rep\u00fablica. O general agrediu o estudante usando gritos desvairados, segurando o livro \u201cA Capital\u201d, de E\u00e7a de Queiroz, pensando ser de Marx. O estudante, calm\u00edssimo, gritou: \u201cgeneral, quero que o senhor v\u00e1 tomar no orif\u00edcio situado na extremidade do reto\u201d.<\/p>\n<p>No momento em que o dinheiro, a queda na arrecada\u00e7\u00e3o, enrosca nas batinas dos bispos, o sangue sobe para o rosto e, por esse motivo, \u00e1reas da igreja posicionaram-se contra Geisel. Em sua gest\u00e3o, por uma decis\u00e3o tomada em segredo, o jornalista Vladimir Herzog suicidou-se nas depend\u00eancias do DOICODI, usando o seu cinto. A causa da trag\u00e9dia, dizem, foi motivada pelo excesso de maquiagem que o presidente aplicava-lhe, todas as noites, no rosto. Geisel, em sigilo, nessa \u00e9poca, fazia um curso de esteticista numa das unidades do SESC Paulista.<\/p>\n<p>O mesmo aconteceu com o metal\u00fargico Manuel Fiel Filho, que n\u00e3o gostava do exagero de ruge que o presidente alem\u00e3o colocava em seu queixo.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1979, num instante de saco empanturrado, extinguiu o AI-5, assinado pelo jogador de cartas Costa e Silva. Em outro minuto de saco encorpado, estreitou os la\u00e7os, os abra\u00e7os e os amassos com a China e a Alemanha. Da Alemanha, terra dos antepassados, comprou uma sucata nuclear em Berlin. Dizem que essa usina fora visitada pelo imperador Pedro II em um dos seus passeios pela Europa.<\/p>\n<p>Uma de suas obras, aquela que marcou a sua passagem pelo planalto foi elevar a infla\u00e7\u00e3o a 18% e, pouco tempo depois a 40%. Os protestos dos trabalhadores subiram pelas cal\u00e7adas. De um buraco no meio da Avenida S\u00e3o Jo\u00e3o, num desses movimentos grevistas, pulou um fruto do Rio Tiete, atrav\u00e9s de um vazamento na tubula\u00e7\u00e3o, que foi identificado como Lula, filho do rio polu\u00eddo. No entardecer do dia 26 de dezembro de 1977, durante uma farra regada a picol\u00e9, assinou a lei do div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>O Brasil precisou, necessitou de Geisel, no correr de uma noite do ano de 1993, quando o presidente deu uma entrevista a m\u00eddia brasileira, demonstrando a sua capacidade prof\u00e9tica, benta, santa. A uma das rep\u00f3rteres respondeu: \u201cO Jair Bolsonaro \u00e9 um grude de polvilho. A sua capacidade de puxa saco caminha l\u00e9guas e l\u00e9guas \u00e0 frente de Cana\u00e3, o espa\u00e7o prometido. Ele vive agarrando-me, pedindo um novo golpe, uma solicita\u00e7\u00e3o transformada em obsess\u00e3o de um mau militar\u201d.<\/p>\n<p>A outro jornalista respondeu: \u201cH\u00e1 muitos militares trabalhando no Congresso, nos infinitos departamentos. N\u00e3o vamos contar o Bolsonaro, porque o Bolsonaro \u00e9 um caso fora do normal, inclusive, um mau militar\u201d.<\/p>\n<p>O grande acerto de Geisel fixa-se, primeiramente no emprego da palavra caso e, na sequ\u00eancia a capacidade de enxergar a normalidade na constitui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do nosso atual presidente. Cal\u00edgula, no imp\u00e9rio romano, era visto como um caso, uma ocorr\u00eancia fora de qualquer circunst\u00e2ncia necess\u00e1ria. A sua imagem de imperador veste a m\u00e1scara do desequil\u00edbrio, inconst\u00e2ncia, alucinado, delirado por ele mesmo.<\/p>\n<p>A palavra anormalidade nasceu l\u00e1 no latim, palavra muito usada por Theo, fil\u00f3sofo das ruas de Atenas. Theo adorava uns goles de vinho, adora\u00e7\u00e3o que o projetava para o futuro. Lan\u00e7ado para um planalto com rampa, alvorada, concha para baixo, concha para cima. Theo viu o homem que, em nome do povo comanda tudo aquilo. \u201cO rosto dele me parece anormal, sempre desconfiado, com medo, demonstrando m\u00e1s ideias, p\u00e9ssimos pensamentos; tudo em sua figura \u00e9 irregular; comportamento, viv\u00eancia, um ser inexplic\u00e1vel, emocionalmente estilha\u00e7ado, adora a morte, vive no reino de Tanatus\u201d.<\/p>\n<p>Antes de partir para Gr\u00e9cia, para sua Atenas, Theo deixou umas s\u00edlabas gravadas no ch\u00e3o: \u201cHouve um chefe, bem antes desse, chamado Geisel que perdera um filho com 16 anos v\u00edtima de atropelamento. A partir desse momento, n\u00e3o encontrou a felicidade em seu mundo e em sua vida. Em refer\u00eancia a Bolsonaro, num desses peda\u00e7os de horas tristes, Geisel disse que Deus n\u00e3o fizera o homem \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a; se olharmos bem para o chefe da alvorada, no mau militar, Deus n\u00e3o erraria tanto.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Prof. Carlos Roberto Rodrigues<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Presidente Geisel, no primeiro minuto de seu governo prometeu uma abertura lenta, gradual e segura. As suas palavras n\u00e3o disseram nada que significasse um grande compromisso com a liberdade. A l\u00edngua portuguesa teme, um pouquinho s\u00f3, a palavra abertura, mas n\u00e3o se trata de uma palavra c\u00f4moda, tranquila. 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