{"id":46488,"date":"2021-04-17T00:25:18","date_gmt":"2021-04-17T03:25:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/?p=46488"},"modified":"2021-04-16T22:47:15","modified_gmt":"2021-04-17T01:47:15","slug":"fe-e-razao-o-caminho-da-fragilidade-descobrirmos-nossa-humanidade-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diariodetaubateregiao.com.br\/dt\/fe-e-razao-o-caminho-da-fragilidade-descobrirmos-nossa-humanidade-comum\/","title":{"rendered":"F\u00e9 e Raz\u00e3o &#8211; O caminho da fragilidade: descobrirmos nossa humanidade comum"},"content":{"rendered":"<p>O m\u00edstico medieval Ricardo de S\u00e3o V\u00edtor (1096-1141) escreveu: \u201cOnde est\u00e1 o amor, a\u00ed h\u00e1 um olhar\u201d. N\u00e3o raro, este olhar que o amor nos requer d\u00e1-se no contexto de um sofrimento que ter\u00edamos absolutamente preferido n\u00e3o viver, mas da qual aprendemos alguma coisa \u2013 e alguma coisa de bel\u00edssimo \u2013 a que, sem ela, n\u00e3o ter\u00edamos chegado. Quantas pessoas passam a ter uma nova perspectiva da vida ap\u00f3s um sofrimento marcante; ou realizam uma revis\u00e3o da pr\u00f3pria vida trilhando novos e melhores caminhos; e outras encontram um novo e profundo sentido para a vida at\u00e9 ent\u00e3o superficial.<\/p>\n<p>O mundo da dor \u00e9 vasto e, quando menos o esperamos, encontramo-nos a habit\u00e1-lo. Os sentimentos que ent\u00e3o irrompem s\u00e3o muitos: recusamo-nos a aceitar, entramos em revolta, em depress\u00e3o; gostar\u00edamos de fugir para longe; perguntamo-nos porqu\u00ea?, porqu\u00ea precisamente a mim?, porqu\u00ea precisamente agora?; sentimo-nos despreparados para uma travessia muito \u00e1rdua.<\/p>\n<p>E, pelo menos neste \u00faltimo ponto, temos raz\u00e3o. O nosso tempo fez da doen\u00e7a, da velhice, da defici\u00eancia um verdadeiro tabu. Vigora uma esp\u00e9cie de interdito em rela\u00e7\u00e3o \u00e1 vida vulner\u00e1vel: cada um tem de viver estas situa\u00e7\u00f5es em estreita solid\u00e3o, sem grandes ajudas para aprofundar a sua experi\u00eancia como um recurso, e n\u00e3o como fatalidade. No entanto, a verdade \u00e9 bem diferente deste des\u00edgnio tra\u00e7ado pelo ego\u00edsmo ou pelo medo.<\/p>\n<p>Um dia escutei um pai falar do seu filho com S\u00edndrome de Down, dizia: \u201cEste meu filho \u00e9 um membro importante da nossa fam\u00edlia. \u00c9 o nosso ponto de uni\u00e3o. Fez de n\u00f3s pessoas diferentes, mais humanas e atentas aos outros. Alargou a nossa capacidade de amar\u201d.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia desse pai \u00e9 a experi\u00eancia de muitas pessoas que possuem um membro fr\u00e1gil em sua fam\u00edlia. Experi\u00eancia que leva a cada membro da fam\u00edlia a repensar a pr\u00f3pria vida e seu sentido. A humanizar a pr\u00f3pria vida abrindo-se a valores mais profundos da exist\u00eancia e sobretudo ensina-nos a amar de forma mais profunda. \u00c9 um despertar do nosso ser.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o incumbe a todos n\u00f3s a tarefa de despertar o nosso ser, de nos tornarmos humanos? Esse pode ser um processo longo e por vezes doloroso. Envolve um crescimento para a liberdade, uma abertura do nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e0s outras pessoas, sem continuarmos a nos esconder por tr\u00e1s de m\u00e1scaras ou dos muros do medo e do preconceito. Significa descobrirmos a nossa humanidade comum. O amor \u00e9 uma subst\u00e2ncia cicatrizante que possibilita crescermos.<\/p>\n<p>Conviver com pessoas com fragilidades ou portadoras de defici\u00eancias mentais leva a um profundo processo de humaniza\u00e7\u00e3o. Pessoas que n\u00e3o s\u00e3o muito capazes no campo intelectual ou pr\u00e1tico, mais que s\u00e3o muito bem-dotadas nos relacionamentos. Com elas descobrimos que a maturidade humana chega quando come\u00e7amos a unir nossas mentes e nossos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos crescer espiritualmente se ignoramos nossa humanidade, assim como n\u00e3o podemos nos tornar plenamente humanos se ignorarmos a espiritualidade.<\/p>\n<p>Devemos recuperar a realidade do limite e reconciliarmo-nos com ela. S\u00f3 existimos enquanto limitados. Todos os dias fazemos a experi\u00eancia de que \u201csomos feitos assim\u201d: cada um tem a sua hist\u00f3ria, a sua estrutura psicol\u00f3gica, o seu car\u00e1ter, as suas doen\u00e7as interiores etc.<\/p>\n<p>Devemos acolher-nos e amar-nos, n\u00e3o de malgrado, mas atrav\u00e9s de todas as nossas feridas e das nossas debilidades. E aos outros como a n\u00f3s mesmos!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Prof. Jos\u00e9 Pereira da Silva<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00edstico medieval Ricardo de S\u00e3o V\u00edtor (1096-1141) escreveu: \u201cOnde est\u00e1 o amor, a\u00ed h\u00e1 um olhar\u201d. 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