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sábado 7 março 2026
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Literatura em gotas – Horácio

Referido pelo historiador romano Tito Lívio, Horácio é um personagem lendário dos primórdios de Roma. Modernamente ele é o herói de Horácio (1640), tragédia de Corneille.

A ação da peça transcorre em um momento chave da expansão de Roma: os romanos já conquistaram todas as cidades vizinhas à sua, exceto Alba, onde nasceram Remo e Rômulo; mas sua independência não se manterá por muito tempo.

Para evitar uma luta fraticida, os soberanos resolvem que, em vez do povo, deverão enfrentar-se apenas os mais valentes lutadores das duas cidades. Os vencedores dariam à sua cidade a supremacia sobre o novo Império.
Roma escolheu para a luta os três irmãos Horácios; Alba, os três irmãos Curiácios. Acontece que esses lutadores eram ligados entre si por laços de amor e amizade: Horácio, marido de Sabina e irmão de Camila, deve enfrentar Curiácio, noivo de Camila e irmão de Sabina.

O conflito que aflige os personagens opõe o interesse privado ao interesse público, e o patriotismo às afeições humanas. Nenhum dos dois heróis pensa em fugir ao seu dever. Lutarão. Mas à intransigência do romano opõe-se a consciência trágica do albano. Horácio encarna a virtus romana, exige o sacrifício total das relações individuais aos interesses da nação.

Horácio é a mais trágica das peças de Corneille, questiona o mito das origens de Roma, o assassinato de Remo e Rômulo, interroga o crime fundador da ordem política.
No período pós-revolucionário, a figura de Horácio sugeria o sacrifício sublime exigido pelo amor à pátria.
A voga era então o retorno ao antigo, ao modelo romano. O célebre quadro do pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825), O juramento dos Horácios, celebra a mesma virtus.

A releitura contemporânea de Corneille, ao contrário, faz de Horácio um fanático; e as concepções atuais da política, que repousam na separação da vida privada e da vida pública, condenam essa desumana intransigência.

Prof. José Pereira da Silva