Bouvard e Pécuchet são os personagens principais do romance homônimo do escritor francês Flaubert (1821-1880). Inacabado, o romance foi publicado em 1881, um ano após a morte do autor. Esse romance, que obcedou Flaubert por mais de 20 anos, tem sua origem naqueles elementos que sempre causaram fixação no escritor: a leitura, o saber e a escrita.
Doiis celibatários, autodidatas, escriturários de repartições públicas, tornam-se amigos após o encontro em um banco de praça, em Paris: assim começa a aventura desses dois patetas, diferentes e complementares, que, retirando-se em 1839 para a pequena localidade normanda de Chavignolles, vão fazer um esforço para aprender tudo.
Em dez capítulos, Flaubert nos mostra os dois passando da agricultura para as ciências (química, física , medicina), depois para a história, a ciência política. Curiosos acerca de tudo, eles sabem apenas acumular, pois são privados de espírito crítico. Esses aprendizes instruídos, sonham , na última parte do livro, em adotar duas crianças, a fim de cuidar de sua educação.
Flaubert escreveu apenas a primeira parte desse anti-romance da educação; na segunda, pretendia apresentar o trabalho de reprodução das leituras dos dois personagens.
Essa epopéia cômica , essa enciclopédia farsesca, põe diante do leitor dois personagens unidos e risíveis, possuídos pelo desejo de tudo saber, tudo conhecer. Essas vítimas do apetite de saber tornam-se, assim, reveladoras: por seu intermédio, Flaubert instaura o processos da auto-sufiência burguesa, atacada no Dictionnaire des idées recues (Dicionário das Idéias feitas), desopilante catálogo das banalidades e pensamentos prontos.
Raymond Queneau (1903-1976) qualificou esse romance satírico de antidiscurso do método. O livro mostra sobretudo as reviravoltas nas representações do saber: a crença na possibilidade de organizar todos os conhecimentos em um sistema totalizante tornou-se obsoleta.
Prof. José Pereira da Silva






















