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sábado 7 março 2026
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Internacional – Summer Camps: entre tragédia e legado, o que esses acampamentos ensinam aos jovens

A tragédia ocorrida no Texas no último 4 de julho — quando uma enchente repentina atingiu a região central do estado e devastou alguns dos mais tradicionais acampamentos infantis, como o Camp Mystic e o Heart O’ the Hills — reacendeu a atenção internacional sobre as consequências da crise climática. Mas trouxe à tona também um tema pouco conhecido fora dos Estados Unidos: o papel formativo dos summer camps, esses programas de férias que mobilizam milhões de crianças e adolescentes todos os anos por aqui.

Só em 2023, mais de 14 milhões de jovens participaram de acampamentos de verão nos EUA, segundo a American Camp Association. Ao todo, são cerca de 14 mil camps espalhados pelo país, sendo 311 apenas no Texas, que geram uma movimentação econômica de quase US$ 200 milhões por ano. Há camps voltados para esportes, música, ciências, artes cênicas, religião, tecnologia — e muitos outros com estrutura completa para dormir no local (overnight) ou ir e voltar todos os dias (day camp). Escolas públicas, escolas particulares, distritos municipais, igrejas e ONGs também organizam versões acessíveis e educativas, como extensão do ano letivo.

Para muitas famílias americanas, acampar no verão é mais do que uma atividade: é um rito de passagem. Em vez de telas, há bússolas. Em vez de ar-condicionado, redes, barracas ou beliches em quartos coletivos. Em vez de performance nas redes sociais, conexão com a natureza e com os outros. Os camps promovem autonomia, habilidades sociais, respeito mútuo e liderança. É comum que, após algumas semanas no campo, jovens retornem para casa mais confiantes, cooperativos e emocionalmente maduros.

“Você sai de lá com outra visão de mundo. Eu tinha 12 anos na primeira vez que fui, e aprendi a cuidar das outras, a cuidar de mim. Parece simples, mas foi o que moldou quem eu sou hoje”, conta Emily Rhodes, ex-campista e hoje voluntária em programas de liderança juvenil.

Segundo a American Camp Association e estudos recentes, os benefícios são mensuráveis: campistas melhoram em 30% suas habilidades sociais, desenvolvem liderança, autonomia e valores comunitários, e tendem a responder com mais confiança e resiliência diante de desafios futuros.

Criados há mais de um século, os acampamentos de verão — alguns exclusivos para meninas, como o próprio Camp Mystic, fundado em 1926 — foram pensados como espaços seguros para fortalecimento emocional, aprendizado prático e formação de caráter. Lá, as crianças aprendem muito mais do que canoagem, teatro ou fazer fogo: aprendem a liderar, a colaborar, a confiar em si mesmas. Sem celulares, sem espelhos em excesso, sem pressões sociais. Vivem dias intensos de convivência, desafios e construção de identidade.

A rotina inclui tarefas coletivas, trilhas, arte, espiritualidade, esportes e desafios físicos e emocionais. Tudo pensado para desenvolver valores essenciais como empatia, resiliência, criatividade e autonomia. Nos Estados Unidos, esse modelo é valorizado tanto por famílias quanto por escolas — e até por universidades, que muitas vezes consideram a experiência em camps como um diferencial positivo nos processos de admissão.

A tragédia recente, no entanto, abriu espaço para um debate urgente: como garantir segurança a esses espaços em tempos de extremos climáticos? A região onde está localizado o Camp Mystic, no centro do Texas, é conhecida como flash-flood alley — zona propensa a inundações repentinas. Com o avanço das mudanças climáticas, especialistas pedem atualização nos protocolos de evacuação, revisão das infraestruturas e monitoramento constante das condições meteorológicas.

Enquanto isso, um sentimento coletivo de luto e reconstrução toma forma. Ex-campistas se mobilizam em campanhas para reerguer os acampamentos e manter viva a essência desses espaços que marcaram tantas vidas. Multiplicam-se também as homenagens a duas figuras simbólicas: Richard “Dick” Eastland, diretor do Mystic, que morreu tentando resgatar meninas durante a enchente; e Jane Ragsdale, proprietária do Camp Heart O’ the Hills, que se afogou aos 67 anos enquanto procurava por conselheiros durante a tempestade. Embora o acampamento ainda não tivesse começado oficialmente, Jane estava no local fazendo os preparativos e acreditava que alguns membros da equipe estavam em perigo. Ambos eram referências na comunidade e representavam o espírito de entrega e cuidado que define o universo dos summer camps.

Para quem nunca viveu um summer camp, tudo isso pode parecer exagero. Mas, para quem passou por essa experiência, o impacto é real — e duradouro. Um acampamento de verão é um microcosmo onde valores humanos se aprendem pela prática, onde amizades nascem em volta da fogueira, e onde o tempo, enfim, desacelera.

No Brasil, ainda são raras as iniciativas parecidas com essa — e quase sempre restritas a escolas particulares ou acampamentos religiosos. Mas talvez o modelo americano traga pistas valiosas sobre como repensar o que oferecemos às nossas crianças durante as férias: mais conexão, mais vivência real, mais espaço para o crescimento fora das telas e dos muros escolares.

Porque, como a tragédia do Texas nos lembrou, proteger esses espaços vai além da infraestrutura: é preservar experiências que transformam. E são essas experiências que ajudam a formar os adultos que queremos no futuro.

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@danibalieiroamorim
Austin, TX
Youtube: @foradoroteirodba