Ontem à noite, mergulhei em um sonho, um verdadeiro pesadelo. Não era assombrado por monstros ou quedas intermináveis, mas por uma distorção perversa da justiça. No meu mundo onírico, eu era a lei. Um prêmio macabro me concedera o direito de viver acima de todas as regras. Eu poderia tudo, julgar, roubar, até mesmo decidir sobre a vida e a morte de outrem. A justiça comum, aquela que deveria ser cega e igual para todos, só poderia me tocar se eu obtivesse a autorização dos meus pares, dos meus parentes, dos meus amigos. Era um clube exclusivo de impunidade, onde a atrocidade era um passatempo permitido desde que endossada pela panelinha.
Acordei ofegante, um suor frio na testa, aliviado por encontrar na penumbra do quarto apenas a ética que carrego e a luta pela cidadania que defendo. “Que absurdo”, pensei, “que devaneio grotesco da mente.” Busquei água na cozinha, tentando dissipar aquele eco de tirania.
Foi então que liguei a televisão, por descuido ou por destino. E eis que o pesadelo não tinha ficado confinado ao travesseiro. Ele estava ali, em cores vivas, ecoando nos plenários de Brasília. Os monstros não tinham garras ou dentes afiados, mas paletós e gravatas, e falavam em nome do povo. Os trezentos e tantos que vi na tela não estavam sonhando; estavam acordados, propositalmente, tentando legislar meu sonho de horror para que se tornasse a vigília de uma nação.
A mesma blindagem que eu julgara tão absurda no meu delírio noturno era agora debatida com seriedade. A ideia de que alguns podem estar acima do bem e do mal, protegidos por um cordão de isolamento familiar e amigável, contrariando todos os parâmetros da lei para beneficiar diretamente o crime. Era a materialização daquela justiça de clã, da societania invertida, onde o coletivo serve para proteger o indivíduo poderoso, e não para elevar a comunidade.
O pesadelo ganhava corpo, e seu cheiro era de gasolina queimada e borracha de pneu. Sua voz era um arremedo de constituição alheia, uma “primeira emenda” importada para tentar resguardar colega de golpismo com julgamento concluído e prisão marcada. Seus seguidores, em um delírio ainda mais profundo que o meu, rezam para pneus e apontam celulares para o céu, na vã esperança de que os quartéis deponham o governo eleito, rasgando o direito do povo de escolher.
Percebi, com um calafrio, que o verdadeiro sonho injusto não era o meu. O meu era apenas um reflexo, um aviso subconsciente. O verdadeiro sonho, ou pesadelo, é coletivo. É cultivado por velhacos sem pudor que, de maneira despudorada, impõem à sociedade suas leis à revelia da Lei Maior, daquela que tem no STF seu guardião. Sonham em serem mais cidadãos que nós, com direitos especiais e imunidades morais.
Não podemos deixar. O despertar tem de ser agora, antes que o sonho deles vire o nosso pesadelo permanente. Precisamos colocar nosso ideal de sociedade dentro da lei, da ética e da liberdade com responsabilidade. Precisamos lutar por uma verdadeira societania, onde a justiça seja um farol para todos, não um holofote que cega alguns e deixa outros na escuridão. O voto é a nossa arma contra isso. A consciência, o nosso escudo.
O meu sonho foi um alerta. Cabe a nós acordarmos para não vivê-lo.
____________
por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















