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sábado 7 março 2026
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Giramundo – Tempo despedaçado

Lembro-me de quando a verdade era — se não sólida — ao menos uma paisagem compartilhada. Havia discordâncias, claro, mas elas se pareciam com debates sobre os contornos de uma mesma montanha observada de diferentes trilhas. Cada um via um lado, uma sombra, uma inclinação distinta. Ainda assim, a montanha existia. Ela impunha seus limites à imaginação e servia de referência comum. Hoje, essa montanha se dissolveu na névoa digitalizada do tempo.

Acordamos não mais em países, cidades ou bairros, mas em planetas pessoais. O vizinho do apartamento 666 habita uma realidade paralela à minha, embora dividamos o mesmo elevador, o mesmo porteiro e a mesma taxa de condomínio. Ele desce convencido de uma conspiração global que explicaria tudo; eu, atordoado por uma manchete cuidadosamente apurada que ele considera ficção produzida por forças ocultas. Já não discutimos ideias. Trocamos olhares desconfiados, silêncios constrangidos, pequenas estranhezas cotidianas. A guerra não é mais travada por territórios no mapa, mas pelo território da mente — e essa, caro leitor, é a mais silenciosa e devastadora de todas.
Chamam isso de “pós-verdade”. Um termo elegante, quase asséptico, para algo muito mais próximo do caos. É o tempo em que o fato — esse velho amigo teimoso, incômodo, limitado — é destronado pelo “eu sinto que é assim”. A emoção substitui a evidência. A convicção pessoal passa a valer mais do que qualquer prova. Reis são coroados e governos derrubados não por programas ou diagnósticos, mas por afetos mobilizados. E, no meio desse fogo cruzado de certezas inflamadas, nós — a plebe digital — somos ao mesmo tempo soldados e campo de batalha.

Do lado de fora da minha janela, a geopolítica se desenrola em pixels. O mundo virou uma peça de teatro permanente, encenada nas telas dos celulares. Os atores principais não vestem fardas nem discursam em palanques: são algoritmos silenciosos, programados para amplificar o que desperta medo, raiva ou indignação. Os cenários são nossas timelines, atualizadas a cada segundo. Uma potência estrangeira já não precisa atravessar fronteiras com tanques; invade com exércitos de bots, memes e narrativas cuidadosamente calibradas, que se infiltram nos grupos de WhatsApp da família como um vírus educado, quase invisível. O objetivo não é apenas nos fazer acreditar neles, mas desconfiar de tudo: dos vizinhos, das instituições, da imprensa, da própria ideia de realidade compartilhada. Dividir para conquistar nunca foi tão barato — e tão eficiente. O império agora é a nossa atenção coletiva.

A toxicidade que respiramos não vem do ar, mas do ar digital. O algoritmo, esse cozinheiro invisível das redes, descobriu rapidamente que pratos apimentados com ódio e indignação geram mais engajamento do que refeições equilibradas feitas de contexto e nuance. E assim nos serve, todos os dias, um cardápio farto de escândalos, inimigos e certezas absolutas. A discussão morreu. No lugar dela surgiu o espetáculo. A política virou ringue, a opinião virou torcida organizada, e o adversário deixou de ser alguém a ser convencido para se tornar alguém a ser destruído simbolicamente. Viciamo-nos na adrenalina do conflito, e o palco principal dessa novela distópica cabe no bolso.

Enquanto isso, a grande mídia — aquela que um dia se colocou como pilar da realidade comum — cambaleia no meio do terremoto. Alguns veículos tentam se agarrar ao jornalismo de raiz, à apuração lenta, ao compromisso com os fatos, mesmo naufragando em mares de desconfiança e ataques constantes. Outros, para não morrerem de fome de audiência, começam a servir o mesmo veneno que deveriam combater: manchetes gritadas, polarização calculada, indignação como produto. É triste ver um velho leão, outrora respeitado, aprender truques circenses para sobreviver num picadeiro dominado por gladiadores digitais. A barbárie virou espetáculo — e há quem se alimente dela com apetite.

E o Sul Global, nesse cenário? Ah, somos os novos colonizados do século XXI. Antes, levavam o ouro, a prata, as especiarias. Hoje, levam nossos dados, nossa atenção, nossos medos e desejos. Navegamos em mares digitais cujas correntes são controladas a milhares de quilômetros de distância, por servidores anônimos e interesses que raramente passam por aqui. Consumimos narrativas embaladas em interfaces sedutoras, quase sempre produzidas fora de nosso contexto histórico e cultural. A luta por uma voz própria, por contar nossa própria história com nossas palavras, talvez seja a batalha mais importante que travamos — muitas vezes sem sequer perceber que estamos nela.

Às vezes, pego-me observando meu filho, absorto em seu tablet. Que mundo cognitivo ele habita? Que torre de Babel digital estamos erguendo para ele, onde todos falam ao mesmo tempo, mas ninguém parece falar a mesma língua da verdade? A confiança — essa cola invisível que mantém uma sociedade minimamente coesa — escorre entre nossos dedos como areia fina. Reconstruí-la parece tarefa impossível diante da velocidade do fluxo informacional e da fragilidade das instituições.

Mas crônicas, mesmo as mais sombrias, pedem um lampejo de esperança. Talvez ela não esteja num retorno impossível a um passado idealizado, onde supostamente todos concordavam.

Talvez esteja nos gestos pequenos, teimosos, quase invisíveis. Na conversa olho no olho com o vizinho do 666, desligando os celulares e aceitando o desconforto do desacordo real. Na busca humilde por fontes, na disposição de ouvir antes de reagir. No esforço de ensinar às crianças uma pergunta simples e revolucionária: “como você sabe disso?”. Na recusa consciente de compartilhar a fúria antes de respirar fundo.

A nova ordem mundial, se é que haverá uma, não será erguida apenas por tratados entre Estados ou cúpulas internacionais transmitidas ao vivo. Ela nascerá — ou fracassará — num pacto cotidiano entre indivíduos comuns. Um pacto frágil, imperfeito, mas necessário: escutar mais do que gritar; duvidar inclusive das próprias certezas; aceitar que a realidade é complexa e que nenhum de nós a possui por inteiro. Nas ruínas dos fatos, talvez ainda seja possível reconstruir, tijolo por tijolo, algo que se pareça com um mundo comum.

Porque, no fim das contas, a única saída da nova torre de Babel não é gritar mais alto na própria língua, mas decidir, com paciência e esforço, aprender novamente a nos entender.

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por Oswaldo Macedo