Há cidades que se assentam em marcos de pedra; há outras que se assanam em discursos. Taubaté, que cresce entre becos de memória e avenidas de pressa, parece hoje dividida entre dois tipos de políticos, dois modos de governar que, no fundo, são dois males da mesma paisagem.
O primeiro promete vender a cidade como quem anuncia liquidação de fim de estação: reduz ruas, cultura e serviços a mercadorias prontas para serem trocadas por favores e interesses pessoais. Vem em discurso inflamado, gestos largos e promessas que soam como mantras. Assume-se no poder e conserva o verbo acima do trabalho: muito palanque, pouca planta; muito discurso, pouca obra. Faz da cidade uma espécie de cenário onde se encena a própria grandeza, enquanto o povo fica à deriva, contando, no silêncio cotidiano, os prejuízos que ninguém promete devolver.
O segundo tipo morou no passado e ali ficou preso — um conservadorismo servil que não se libertou, que herdou dívidas e hábitos e, ao invés de consertar, preferiu empilhar justificativas. Transformou o erário em saldo devedor não só de contas, mas de oportunidades: espaços públicos abandonados, políticas sociais manietadas, juventudes sem rota. E nessa herança, os que não gostam de trabalhar para o bem coletivo encontram pretexto para vender tudo — até a alma da cidade — em troca de soluços imediatos de lucro e de poder.
Diante desse quadro, fica a pergunta abafada que sempre insiste: e o povo? A resposta, talvez, esteja na recuperação de uma consciência de cidadania que não se renda ao espetáculo da ignorância. Cidadania não é retórica de cartaz nem adesivo na janela; é rotina de cuidado, é exigência por gestão responsável, é atitude coletiva que transforma rua, escola e praça em bens que pertencem ao futuro.
Precisamos recolocar o eixo de Taubaté. Não numa volta nostálgica àquilo que fomos, mas na construção de um presente que pense nas gerações que virão com políticas que não sejam efêmeras, com gestão que não trate a cidade como startup de esquina destinada a meia dúzia. A cidade é maior: é gente, é memória, é trabalho; é possibilidade acumulada que pede respeito.
Gestores, há um apelo claro aqui, feito sem cerimônia: acordem. Menos proselitismo, mais ação. Menos bajulação, mais coragem ética. Menos palavras que inflacionam e mais decisões que diminuam a desigualdade. Aristóteles já havia notado: os tiranos se cercam de homens maus porque gostam de ser bajulados, e ninguém de espírito elevado se presta a isso. Que essa lição antiga sirva para os novos tempos que precisamos inventar.
Quando caminhamos pela cidade — pelas avenidas, pelas calçadas da praça, pelos bairros onde a vida acontece — sentimos que Taubaté guarda materiais para um projeto maior. Guardadas as diferenças, há um solo fértil de afeto cívico. O desafio é transformar esse afeto em política que dure, que não se resuma a palcos e outdoors. Queremos gestores cuja palavra combine com o gesto, cuja presença não seja mero figurino, mas exemplo de cidadania: visível, concreta, mensurável.
O que nos falta, às vezes, é coragem para exigir o óbvio: transparência, planejamento, decência. Não é pouca coisa. É o básico de um pacto entre cidade e governantes. E, no silêncio entre uma promessa e outra, a cidade segue respirando, com vontade de não mais se ajoelhar a interesses que a diminuem.
Taubaté pede, portanto, algo simples e difícil ao mesmo tempo: que a cidadania fale alto, que os equívocos do passado se transformem em lições e que a ação vença o discurso. Se assim for, talvez a cidade, enfim, possa se erguer inteira, não para ser vendida, nem para repousar num passado servil, mas para seguir servindo às gerações que aqui querem viver com dignidade.
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por Oswaldo Macedo






















