Padre Antônio Vieira sobe ao púlpito com a solenidade de quem carrega a palavra e o olhar de toda uma multidão. Sua fama precede o momento; os sermões dele eram como relâmpagos: rasgavam o céu das certezas e iluminavam a vastidão da consciência humana. Era o 4º Domingo da Ascensão, e todos aguardavam ansiosos por suas palavras sobre Cristo, a grande imagem que une o Divino ao humano.
Ele começa com uma confissão que choca: “A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais do que a imagem do Cristo Crucificado.”
O burburinho no templo é inevitável. Como poderia alguém – ainda mais um pregador renomado – afirmar que sua miséria pessoal o tocava mais profundamente que o sacrifício do Salvador? Vieira, no entanto, não deixa espaço para mal-entendidos.
“Diante dessa imagem do Cristo crucificado, eu sou levado a assoberbar-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados, é que me apequeno, por ver o preço pelo qual eu me vendi.”
A beleza dessa frase está na sua dureza. Não é sobre o divino, mas sobre o humano. É sobre nós, que, ao contemplarmos o alto preço pago por Cristo, inchamos de vaidade, convencidos de que valemos muito. Mas ao olhar para as próprias falhas, para a maneira como trocamos nossas almas por migalhas – os “nadas do mundo” –, somos tomados pela consciência de que somos frágeis, pequenos.
Essa reflexão sobre valor, pecado e venda ressoa não apenas na intimidade individual, mas também na coletividade. O que são os “nadas do mundo” que nos compram? Glória, poder, vingança? A lição de Vieira parece nos perguntar: será que, como indivíduos e sociedades, estamos constantemente à venda?
É aqui que a crônica vira espelho para os tempos modernos. A passagem sobre o “judeu carniceiro” e o conflito entre israelenses e palestinos joga luz sobre a violência sistemática que marca o curso da história. O mesmo discurso que poderia ser usado para promover a reconciliação é frequentemente distorcido, transformando a narrativa da cruz – amor e sacrifício – em justificativa para vingança e opressão.
Dizimar, destruir, eliminar: atos que nunca levam à paz, mas sim ao rancor que perdura por gerações. Não é apenas um povo ou uma religião que se perde nessa lógica de “combater o terror com terror”. É a humanidade, vendendo-se, mais uma vez, pelos “nadas do mundo”.
Mas voltemos ao púlpito de Vieira, à sua genialidade em tocar na ferida sem anestesiar a alma. Sua mensagem, tanto naquele 4º Domingo da Ascensão quanto nos dias de hoje, é um chamado à lucidez. Antes de olharmos para as ações alheias, é preciso confrontar nossos próprios pecados. Antes de apontarmos o dedo para os que perpetuam a violência, devemos perguntar: que parte de nós se deixa seduzir por ela?
A verdade é que a imagem dos nossos pecados pode, sim, comover-nos mais do que a do Cristo Crucificado. Não porque ela seja maior ou mais importante, mas porque é nela que enxergamos o abismo entre o que somos e o que poderíamos ser. Nesse abismo está o desafio de nos resgatar, de não nos vender tão barato, de lembrar que, enquanto persistirmos nos “nadas”, continuaremos a perder o essencial.
Vieira como sempre, nos deixou um sermão. A questão é: temos coragem de escutá-lo?
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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















