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sábado 7 março 2026
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Giramundo – O tribunal das árvores em Taubaté

Em Taubaté, as árvores estão sendo julgadas. E condenadas. Sem direito de defesa, sem apelação. O réu? O verde da cidade. A sentença? O tronco no chão, as folhas espalhadas, o silêncio onde antes havia sombra, abrigo e memória.

As motosserras não cortam apenas madeira: elas cortam laços. O som estridente que ecoa pelas ruas é o anúncio de um funeral coletivo. Cada árvore caída é uma história soterrada. Uma criança que brincou embaixo dela, um idoso que descansou em sua sombra, um casal que ali fez promessa de amor. Nada disso pesa para quem vê o urbano como obstáculo ao natural.

A prefeitura atual, em vez de gestora, parece gestora de um condomínio privado, uma startup sem alma que desconsidera a natureza como parte vital do tecido urbano. Não há plano ambiental, só planejamento de poda — e corte. O que está sendo extirpado não é apenas vegetal, é vital. É o respiro da cidade, que se torna, a cada galho no chão, mais sufocada pelo asfalto e pela arrogância.

A modernidade não pode ser pretexto para o retrocesso ambiental. O discurso do “progresso” nunca soou tão vazio e assaz. Fala-se em inovação, mas age-se como nos piores tempos da ignorância colonial, quando o território era apenas algo a ser explorado e vendido.

E o povo? Triste, mas ainda calado. Talvez anestesiado por outras dores. Talvez cansado de promessas não cumpridas. Mas é preciso lembrar: quando cortam as árvores, cortam também nossos direitos ao futuro. Estamos assistindo à descaracterização de uma cidade que, ao perder seu verde, perde também sua identidade.

O tribunal das árvores é injusto. Nele, os culpados saem impunes e as vítimas tombam em silêncio. Taubaté não merece esse destino. O verde não é obstáculo; é horizonte. Que a consciência coletiva possa florescer antes que a última árvore seja deitada — e com ela, nossa última chance de respirar dignidade.

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por Oswaldo Macedo