Tem dia que vale por muitos. Dia que não cabe na folhinha do calendário, porque se espalha pela memória como cheiro de café passado na hora certa. No primeiro dia de 2026, não acertei as dezenas da Mega da Virada — confesso, nenhuma. Mas, para quem aprendeu a ler a realidade em crônicas, essas pequenas epifanias do cotidiano, acertei em cheio.
Em meio ao excesso de anúncios que gritam e nada dizem, encontrei uma vendinha à beira da estrada, dessas que parecem ter sido colocadas ali não por cálculo, mas por destino. Um bairro rural de São Luís do Paraitinga, uma conversa breve com Raulzinho, a viola pendurada na parede, o comércio na frente e a casa nos fundos. Simples assim. E, justamente por isso, tão raro.
Raulzinho falou da família, falou do pai, mestre de Moçambique, desses que não cabem em currículos nem em placas oficiais, mas sustentam a memória de um povo inteiro. Falou dos encontros, dos causos, da fé que não se separa da cultura. Cada palavra tinha o peso exato, como se fosse medida naquela antiga balança Filizola esquecida num canto do balcão. Nada sobrava, nada faltava. Era história viva sendo pesada no olho e no coração.
Ali perto, a cachoeira mansa refrescava o corpo e também o tempo. Nada de tororomas assustadores ou águas paradas de represa. Água que corre, como deve ser. Crianças livres, famílias acolhidas, respeito circulando sem precisar ser anunciado. O senhor Mauro e a senhora Tatiana nos receberam com essa hospitalidade que não se aprende em manual: se herda. Apresentaram o lugar, apresentaram Raulzinho, apresentaram um modo de viver que resiste, silencioso, ao barulho da pressa.
Percebi então que aquele espaço guardava algo muito maior do que mercadorias ou paisagem bonita. Guardava identidade. Guardava memória. Guardava um jeito de ser que conecta passado, presente e futuro sem precisar romper nenhum deles. Um patrimônio que não cabe em inventário, mas vence o tempo porque se renova no encontro.
Começar o ano assim é ganhar um presente que não vem embrulhado. Um presente que revela segredos, conta e reconta histórias, faz a gente voltar no tempo sem sair do lugar. Entre a modernidade e a memória, escolhi ficar um pouco mais com a memória — não por nostalgia, mas por necessidade.
Na volta para casa, o contraste. A rodovia cheia, o desespero do retorno do litoral, o trânsito como metáfora perfeita do cotidiano: pressa demais, sentido de menos. Tudo nasce velho, tudo cansa rápido, nada se aprecia. As cidades engolem o tempo das pessoas, e as pessoas devolvem ao mundo apenas cansaço.
Em cada curva da estrada imaginei poesias, cantos, contos e causos. Pensei em quanta verdade mora perto da gente e é apagada pela tal modernidade líquida, essa que dissolve vínculos, memórias e pertencimentos. Não basta um choque de realidade. É preciso mostrar mais a cultura do nosso povo, mais os nossos lugares, mais a força dessa gente simples e alegre que funciona como antídoto contra o estresse diário.
Porque, no fim das contas, é o lugar onde estamos que nos ensina a olhar o outro — e a entender o que o outro faz de nós. Sem isso, sobra apenas pressa, trânsito e uma vida inteira gasta tentando chegar a algum lugar sem saber exatamente por quê.
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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















