Há quem diga que as histórias de Zé Varda são pura fantasia, fruto da imaginação de um homem que viveu intensamente. Outros juram de pés juntos que cada palavra é verdadeira, e que os causos de Zé são apenas um reflexo de sua vida cheia de aventuras. Eu, particularmente, gosto de pensar que a verdade se encontra em algum lugar no meio dessas duas possibilidades, e é exatamente aí que reside o charme de suas histórias.
Numa tarde preguiçosa de domingo, lá estava Zé Varda sentado na venda, rodeado pelos amigos que esperavam ansiosamente pela próxima anedota. Com seu jeito simples e voz rouca, ele começou a contar sobre seu cavalo excepcional, tão veloz que parecia desafiar as leis da natureza.
“Pois é, pessoal, tinha eu um cavalo tão bom, mas tão bom, que uma vez, vindo de Paraty para Cunha, o bicho teve um mal súbito e morreu bem no alto da Serra. Mas sabe como é, né? O cavalo era tão rápido que só fui perceber que ele tinha morrido quando cheguei a Cunha, uns 25 quilômetros depois.”
A incredulidade estampada nos rostos ao redor de Zé era palpável. Alguém se atreveu a perguntar:
“Mas, como o senhor conseguiu isso, Seu Zé?”
Ele deu um sorriso maroto e respondeu com a maior naturalidade do mundo:
“Chegou no embalo, ué!”
A risada foi geral. Mas Zé Varda não parou por aí. Ele sabia como prender a atenção de seu público, e logo emendou com outra história ainda mais fantástica.
“E isso não é nada! Pior me aconteceu um dia que eu fui à cidade de Cunha, de madrugada. Todo mundo sabe que sou madrugador, mas naquele dia eu saí tão cedo que fazia um frio de rachar. A geada tinha coberto tudo. Amarrei meu cavalo numa estaquinha perto da praça e fui dar uma volta enquanto o sol não raiava. Depois de um tempo, voltei para buscar o cavalo e nada de encontrar o bicho. Procurei daqui, procurei dali, e nada. Até que olhei para cima e lá estava o pobre coitado, dependurado na torre da igreja Matriz.”
O silêncio de espanto tomou conta da venda. Alguém, não contendo a curiosidade, perguntou:
“Mas como pode isso, Seu Zé?”
Zé Varda, com um ar sério, concluiu:
“Eh, prá vocês verem a quantia de geada que caiu naquele dia!”
Mais uma vez, a venda foi tomada por risos e exclamações de surpresa. Era impossível não se deixar levar pelas histórias de Zé Varda, que misturavam o cotidiano com o extraordinário, sempre com uma pitada de humor e muito carisma.
Enquanto as risadas ecoavam pela venda, pensei no poder das histórias. Elas têm a capacidade de nos transportar para outros tempos e lugares, de nos fazer acreditar no impossível, nem que seja por alguns instantes. E Zé Varda, com seu talento inato para contar causos, fazia isso com maestria.
No fundo, talvez não importe tanto se as histórias de Zé são verdadeiras ou não. O que realmente importa é a alegria e o encanto que elas trazem, unindo as pessoas em torno de uma boa prosa. E, quem sabe, em algum lugar entre Paraty e Cunha, ainda exista um cavalo tão veloz que nem a morte consegue parar, e uma geada tão intensa que pode até suspender cavalos nos céus.
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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















