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sábado 7 março 2026
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Giramundo – Feliz Ano Novo!

No limiar do novo ano, a cidade respira como quem ajeita uma velha sela antes do mundo partir, antes de ir rumo ao novo, mas com a identidade do passado, do ontem, do hoje e do futuro. Há casas que ainda guardam cheiro de lenha e pão amassado; há mesas onde o feijão é rei e a fala é remédio. E há, também, uma nação inteira que se parte em dois: de um lado, os que acumulam privilégios como se fossem colchetes de fortuna; do outro, os que semeiam utopias com as mãos calejadas, arando a manhã com paciência e coragem.

Que 2026 venha largo para os que acreditam na utopia — não como ilusão, mas como mapa de plantio. Que venha para os que sabem que um rio se faz de nascentes e de cuidados, para os tropeiros modernos que carregam saberes pelo Vale do Paraíba, para aqueles olhos que fotografam as histórias caídas, as histórias recontadas pelo tempo levantando com a mesma reverência de quem registra a fisionomia de um povo. Porque resistir é ensinar a própria terra a sorrir de novo.

Feliz Ano Novo aos que acordam sem a ressaca da culpa; aos que, mesmo com as rachaduras nas paredes, agradecem o dia. Aos que não vendem afetos por conveniência, que extraem fontes de transparência do próprio peito e oferecem banho de verdade aos que se aproximam. Aos que largam no passado o peso do orgulho e segue leves, com a humildade como capa de chuva — abrigo nas intempéries.

Desejo um ano novo para os que amam feijão no prato repartido, para os que sabem da dignidade do suor, para os que transformam migalhas em banquetes de solidariedade. Que a economia da vida supere a economia do privilégio; que quem nunca colocou comida na mesa aprenda a medir sua riqueza em pão dividido, e não em moedas escondidas.

Seja novo o ano para os que desaprendem a maledicência e plantam fragrâncias nas veredas do afeto. Para os que aceitam ser velhos sem fingir juventude e jovens sem pressa de envelhecer — porque há sabedorias que só brotam com o tempo e com a vontade de escutar. Para os sonâmbulos que caminham as veredas do futuro e mantêm a fé na dúvida, esse gesto sagrado de não se satisfazer com respostas fáceis.

Feliz Ano Novo aos órfãos de promessas fáceis, às damas e cavaleiros do desassossego, aos que no espelho se reconhecem belos por dentro e por fora. Aos que não conspiram contra a vida do outro, que se agasalham de ética e não tramam golpes. Aos que entendem que poder sem alimento é teatro e que privilégio sem justiça é ruína.

Num país dividido pelos interesses de poucos, a esperança é ato de rebeldia. Não é distração, tampouco nostalgia: é tarefa. É preparar a mesa, ajeitar o arreio, contar as histórias dos tropeiros — dos que passaram e dos que ficam — e insistir em transformar a memória em projeto. Porque história bem contada é semente que não morre no inverno.

Portanto, um brinde humilde e resistente: aos que aram, aos que semeiam utopias, aos que não perdem a capacidade de se maravilhar. Aos fotógrafos que fazem da luz a recordação do possível; aos contadores de causos que devolvem ao lugar o sentido de ser; aos que cuidam das nascentes, para que o Paraíba e outros rios continuem a cantar.
Que 2026 seja novos no coração dos que acreditam em partilha, fértil nas mãos dos que trabalham, e incisivo contra todo golpismo que queira transformar povo em estatística. Que o ano nos encontre juntos, com as pequenas revoluções do cotidiano — uma colher de feijão oferecida, um conto reescrito, uma foto que não apaga o rosto da gente.

Feliz ano. Que a máscara dos poderosos caia ante a dignidade cotidiana, e que a vida, por fim, nos seja suficiente.
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Oswaldo C. Macedo