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sábado 7 março 2026
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Giramundo – Eu e minha mãe contando estrelas

Nas noites em que o calor não deixava as paredes fechadas respirarem, minha mãe e eu saíamos para o quintal como quem vai a um antigo ritual, uma cerimônia sem resposta certa, mas com a fé de que o universo, naquela hora, se tornava nosso interlocutor. Estendíamos uma manta surrada sobre a terra ainda morna; o cheiro de mato e café velado pela fumaça do fogão nos acompanhava. Os grilos faziam uma orquestra miúda. E começávamos a contar estrelas.
Não era uma contagem mecânica. Cada estrela tinha um nome nosso, um jeito de brilhar que lembrava uma memória: “Aquela é a da Maria velha, que costumava assar bolo quando eu era pequena”, dizia minha mãe, apontando com o dedo calejado do trabalho árduo do campo, o mesmo dedo que depois trançaria pães e costuraria remendos. Eu seguia a linha de seu gesto, contando com ela, perdendo e achando as estrelas entre as veias do céu. Havia estrelas que desapareciam no horizonte como se recuassem diante do mar; outras nasciam tímidas como se tivessem pressa de chegar à nossa conversa.
Falávamos de coisas grandes e de coisas miúdas. Ela contava histórias — histórias que eram biscoitos moldados de lembrança — e eu, menino ambicioso do sertão, colocava nelas perguntas sobre o mundo. Perguntas que vinham dos livros que eu devorava mais tarde, longe dali: “Mãe, como o universo cabe numa panela?” “Como Deus fez tanta coisa?” — e ela, com a paciência de quem já carregou muitas manhãs na enxada, respondia com versos simples, ou com um silêncio que dizia mais do que mil explicações. O silêncio dela parecia desenhar uma linha reta rumo ao infinito e, por nela atravessar, nossos pensamentos bordavam o que seria do nosso futuro.
Havia noites em que o céu se abria inteiro, como um manto limpo estendido por Deus. Nessas noites a serra parecia mais próxima, as sombras dos ipês se misturavam ao contorno das montanhas, e a voz da minha mãe ganhava um som de segredo. Ela falava da terra, do sertão que a ensinou a ser forte e doce ao mesmo tempo, e eu a ouvia como quem recebe instruções para construir uma casa. “Aprende a ver o pouco com olhos grandes”, dizia ela. “É isso que te salva da fome de futuro.” As palavras pareciam sementes: caíam no meu peito e germinavam com gestos futuros.
Lembro-me de um verão em que a lua apareceu só metade; tínhamos a sensação de que o céu estava satisfeito em nos deixar descobrir o resto por conta própria. Contamos estrelas até que nossos dedos estivessem dormentes de apontar. Às vezes, ríamos de bobagens, outras vezes chorávamos sem saber por quê, lágrimas que eram testemunhas da passagem do tempo. Numa dessas noites, minha mãe me disse que as estrelas eram como lembranças: “Quanto mais você as conta, mais vê que elas ocupam os cantos da alma.” E eu entendi que o céu servia de mapa para o nosso passado, um mapa traçado por mãos que nunca deixaram de trabalhar.
Quando parti do sertão para estudar, carreguei comigo mais que livros; levei uma coleção de noites. As estrelas continuavam lá — imutáveis para quem olha de longe — e cada carta que eu escrevia era um pedaço daquele céu enviado de volta para casa. Às vezes, no meio da cidade grande, eu olhava para cima e tentava encontrar a mesma constelação que minha mãe e eu desenháramos com os olhos; poucas vezes tive sucesso, pois a cidade rouba as estrelas. Mas o efeito delas permaneceu: em provas, reuniões e estradas, eu lembrava das histórias costuradas nas madrugadas do quintal e sentia que existia um fio invisível que me ligava ao lar.
Os encontros, ao voltarmos, eram sempre ritos de reencontro com o tempo. Minha mãe envelheceu como crescem as montanhas — sem pressa, com estratos de dias que a tornearam. As mãos que antes mostravam o caminho no céu ganharam manchas de memória; o corpo, passos mais curtos. Ainda assim, quando o calor vinha e as noites convidavam, lá estávamos nós: sentados, contando estrelas. Às vezes eu era quem apontava; outras, ela recuperava a liderança, como se as horas tivessem feito um empréstimo generoso dela para me ensinar outra vez. As conversas tornaram-se mais cheias de silêncio e menos de pressa. Falávamos do que havia sobrado do mundo: das pequenas graças, das perdas, das faces que o tempo levara.
Há uma noite que levo comigo com precisão: chovia uma garoa fina, e o céu estava limpo entre nuvens que passavam devagar. Minha mãe segurou minha mão e disse: “Você acha que a gente tem direito a tudo o que sonha?” Eu olhei para o céu, procurei as respostas entre as estrelas, e respondi: “Acho que a gente tem direito às perguntas.” Ela riu, e o riso parecia iluminar uma estrela por dentro. Entendi então que a grandeza não estava em conquistar o universo, mas em saber viver diante dele — com reverência, com coragem, com o riso que desafia a solidão.
Nossas conversas sobre o criador, o destino e o homem que sonha tornaram-se aulas de humildade. Ao olhar o firmamento, a gente se via pequeno — e isso era conforto, não abandono. Ser pequenos diante da obra do Criador nos permitia ser vastos em ternura: caber no mundo com menos arrogância e mais escuta. Minha mãe, que enxergava o sertão não só como um lugar geográfico mas como uma maneira de ser, dizia que o homem que parte e o que fica são a mesma estrada em sentidos diferentes. “Tudo é sertão”, repetia, “porque sertão é o lugar onde guardamos o que somos.”
Com o passar dos anos, as contagens mudaram. Em vez de contar estrelas, às vezes contávamos memórias: quantas festas, quantos pés descalços, quantos abraços. Em outras noites, apenas tínhamos a presença um do outro — companheiros do infinito. Quando ela se foi, não houve um céu que caísse. Havia, porém, uma constelação criada por nós dois, feita de frases, de pontos de luz tênues e firmes, que me acompanha sempre que a noite vem e eu estendo uma manta qualquer sobre a terra. Alegro-me ao perceber que, nas minhas mãos, ainda mora o gesto de apontar. E ao mostrar a uma criança qualquer uma estrela caída perto do horizonte, ouço na memória a voz dela: “Conta, meu filho. Conta até onde teus olhos alcançam. E lembra: no vivido, a gente vive as nossas esperanças.”

Assim seguiremos — eu e as memórias dela — traçando linhas no horizonte. Porque a beleza do universo não é só o que vemos, mas o que conversamos enquanto o vemos. E é nesses encontros, entre o tilintar do céu e o perfume da terra, que aprendemos a ser pequeno e ao mesmo tempo, vasto o suficiente para guardar uma vida inteira de histórias.

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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo