Há cidades que não envelhecem: apenas mudam de pele. Outras, porém, parecem caminhar com uma lentidão antiga, como quem carrega no lombo as marcas de séculos. Cunha é dessas. Uma cidade que guarda no corpo a poeira do Caminho do Ouro e, na memória, o apito distante dos trens da Central do Brasil — aquele mesmo que nunca chegou por aqui, mas que mudou o Vale do Paraíba o suficiente para isolar alguns municípios e acelerar outros. Cunha ficou ali, no meio do caminho, entre a serra e a história, entre a promessa e a espera.
De uns tempos para cá, porém, o sossego parece ter sido acordado por um alvoroço diferente. A redução do módulo rural — que por muito tempo significou terra, lavoura e vida simples — virou senha para um novo ciclo de ambições: loteamentos que brotam do chão como se fossem flores de plástico, condomínios que se encostam às montanhas sem pedir licença, carros com placas distantes cruzando estradas que antes conheciam apenas o passo pacato das carroças. A especulação chegou sem pedir bênção à paisagem.
E o que poderia ser desenvolvimento vira, aos poucos, uma matemática estranha. A cidade gasta mais do que ganha: abre estradas, reforça escolas, amplia postos de saúde. Mas o caixa não acompanha o ritmo das novas exigências. É como se Cunha tivesse que vestir um traje urbano sem ter tirado ainda suas botas de barro.
Nesse movimento acelerado, aparece outro fenômeno curioso: uma nova forma de política, feita de vozes que vêm de fora, mas querem decidir por dentro. Gente que exige melhorias e opina sobre costumes, critica o que não entende e, ao mesmo tempo, ergue cercas invisíveis ao redor da própria identidade. A cidade corre o risco de perder a sua, enquanto tenta acolher a de quem chega.
Monteiro Lobato, quando andou por Areias, chamou de “cidade morta” aquilo que o progresso abandonou. Em Cunha, o perigo é outro: morrer não por falta de movimento, mas por excesso de movimentos alheios à alma local. Há um tipo de morte que vem disfarçada de crescimento.
A cultura — essa força que teima em brotar como capim entre as pedras — resiste. A cerâmica fumaça seus fornos, a música ecoa nos bares, os artistas continuam produzindo como quem salva o próprio chão. Mas é preciso cuidado: a identidade de uma cidade não é souvenir. Não se vende na prateleira. Não se recorta em lotes.
O que falta, talvez, é conversa. Debate. Cruzamento de olhos na praça. Falta admitir que uma cidade não é feita só de imóveis, mas de imensidões invisíveis: memórias, modos de viver, silêncios que também contam história. A ausência desse diálogo faz nascer um país dentro do outro — o país dos que chegaram e o dos que ficaram — e entre eles uma fronteira política que ninguém vê, mas todos sentem.
Cunha continua linda, é verdade. O verde é generoso. A cerração sobe como reza antiga. As estradas serpenteiam como quem conduz o viajante para dentro de si. Mas a beleza não garante futuro. Para isso é preciso coragem: de discutir, de regular, de preservar, de dizer não quando o progresso vem embalado demais.
Esta crônica não é alerta pessimista. É convite. Convite para olhar de novo, com calma, para a cidade que se quer construir. Porque, se a identidade de Cunha se perder, não será a cidade quem deixará de existir — seremos nós, seus habitantes, que deixaremos de reconhecê-la.
Afinal, uma cidade só morre quando deixa de se olhar no espelho da própria história. E Cunha, mais do que nunca, precisa enxergar o que ainda tem antes que o barulho do futuro abafe de vez o silêncio das suas serras.
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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















