A ofensiva militar norte-americana contra a Venezuela — mais um movimento dentro de um ciclo histórico de intervenções justificadas como defesa da “democracia” e dos “direitos humanos” — insere-se em um cenário geopolítico no qual a ordem internacional construída após 1945 desfaz-se em ritmo acelerado. A chamada “paz liberal”, já corroída por contradições internas, transforma-se diante de nossos olhos em um sistema de coerção permanente, no qual a guerra, e não a cooperação, atua como eixo organizador da economia e da política global. Nesse contexto, a América Latina volta a ocupar seu velho lugar: não como parceira estratégica, mas como território de disputa, extração e tutela.
1. O colapso da ordem liberal e a arquitetura do caos
O colapso da ordem pós-Segunda Guerra não é súbito, mas produto de décadas de esgarçamento institucional. A multipolaridade, imaginada nos anos 1990 por Yevgeny Primakov como alternativa à hegemonia unipolar, desdobrou-se em algo mais turbulento: um mundo sem centro, no qual normas internacionais são instrumentalizadas ou ignoradas conforme o interesse das grandes potências.
A segunda administração Trump apenas expôs — de maneira explícita e brutal — aquilo que já se gestava: o desmonte das instituições multilaterais e a ascensão de um mandonismo geopolítico baseado na lógica “ou você obedece ou será punido”. Esse modelo reverbera pela América Latina, onde governos alinhados ao discurso neocolonial, como o de Javier Milei, incorporam a retórica de subordinação aos centros imperiais como plataforma doméstica.
Nesse ambiente, o ataque norte-americano à Venezuela deixa de ser exceção e passa a representar o padrão: a reafirmação da força como critério de legitimação política.
2. A máquina de guerra e a economia da destruição
A crescente militarização do sistema internacional não é mero acidente histórico: ela atende a uma lógica econômica profunda. O conflito tornou-se um modelo de negócios, organizado para alimentar a engrenagem de corporações de defesa, think tanks belicistas e elites políticas que lucram com a expansão do orçamento militar.
A guerra na Ucrânia, as ofensivas no Oriente Médio e as operações diretas ou indiretas contra governos latino-americanos considerados “inconvenientes”, como o venezuelano, servem como justificativa para gastos trilionários. A Europa, submissa a uma dependência estratégica dos EUA, paga a conta em forma de crise energética e perda de autonomia. Já o Sul Global sofre duplamente: além da pressão econômica e diplomática, enfrenta a circulação de grupos paramilitares, práticas de mercenarismo e estruturas criminosas híbridas, que combinam tecnologia de guerra com redes de tráfico, como ocorre no Haiti, no Sahel africano e em regiões da América Latina.
O resultado é a privatização do caos — uma gestão da violência que extrapola os campos de batalha tradicionais.
3. O contra-ataque global: BRICS, desdolarização e a disputa pelo sistema-mundo
Enquanto o império se desgasta, suas ações aceleram movimentos de resistência sistêmica. O BRICS, inicialmente um agrupamento econômico, transforma-se progressivamente em um bloco geopolítico capaz de oferecer uma alternativa ao sistema financeiro ocidental.
O temor dos Estados Unidos é evidente. O novo BRICS ampliado reúne países responsáveis por cerca de 42% da produção global de petróleo, avança na desdolarização do comércio internacional e já rivaliza, em PIB, com o G7. Não se trata de uma aliança militar, mas de um projeto de reorganização do sistema internacional, no qual soberania nacional e autonomia econômica deixam de ser meras retóricas.
A China, peça central desse rearranjo, propõe uma lógica distinta: estabilidade interna, planejamento estatal, investimento em infraestrutura e relações internacionais baseadas na não-interferência. Trata-se de um ataque direto ao modelo liberal-intervencionista que sustentou a hegemonia ocidental nas últimas décadas.
4. A batalha das narrativas e o poder da desinformação
A guerra que se desenrola hoje não é apenas militar — é também cognitiva. Fake news, manipulação de dados, uso estratégico de inteligência artificial e cobertura midiática seletiva criam um ambiente de profunda confusão pública. Conflitos complexos são reduzidos a alegorias morais simplistas, nas quais “bons” e “maus” são definidos por alinhamentos geopolíticos e não por fatos.
Na América Latina, o problema se agrava: setores da grande mídia permanecem subordinados à lógica editorial estadunidense, reproduzindo análises fragmentadas e silenciando perspectivas críticas. A consequência é um esvaziamento da democracia: como formular posicionamentos autônomos se os fatos são apresentados de forma distorcida ou parcial?
5. O caso venezuelano e o princípio da força bruta
O ataque norte-americano à Venezuela deve ser lido como um marco simbólico. Ele expõe a falência ética da chamada “comunidade internacional”, mostrando que, diante dos interesses estratégicos de Washington, não há regras — apenas conveniências.
O episódio replica, em escala contemporânea, o que a Alemanha nazista fez na Polônia em 1939 e o que os EUA realizaram em diversas intervenções ao longo do século XX: substituir o direito internacional pela razão de Estado do mais forte. A legitimidade do ataque é construída por uma narrativa que mistura alarmismo humanitário, manipulação política e pressões econômicas.
Para o Sul Global, a lição é clara: não existe neutralidade possível. As potências revisionistas (China e Rússia) contestam a hierarquia, mas não a lógica do poder global; e as elites locais, com frequência, colaboram para manter estruturas de saque e dependência.
Conclusão: entre a barbárie organizada e a reconstrução da esperança
O sistema internacional de 2026 move-se aceleradamente para uma era de instabilidade duradoura. A decadência do império norte-americano não ocorre de forma pacífica: ela se expressa por meio de guerras preventivas, sanções compulsórias, intervenções diretas e manipulação informacional.
A tarefa histórica dos países do Sul Global — especialmente da América Latina — consiste em:
• construir soberanias reais, baseadas em autonomia energética, alimentar e tecnológica;
• fortalecer alianças alternativas, como o BRICS, que permitam escapar do feudalismo financeiro do dólar;
• recuperar, nas universidades e na mídia crítica, linguagens de análise e resistência capazes de nomear o sistema sem capitular ao cinismo ou ao fatalismo.
Se o “novo normal” é uma barbárie altamente organizada, o desafio civilizatório está em reorganizar a esperança — e, a partir dela, construir um mundo que não seja refém da violência imperial, da manipulação informacional e da guerra como política permanente.
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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















