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sábado 7 março 2026
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Giramundo – Amizade no sertão

No sertão que habita dentro da gente, a amizade nasce como pouca água, tímida, quase improvisada, e vai tomando forma aos poucos, fio por fio, até inventar um rio. É no deserto das necessidades que ela se mostra: não como retórica, mas como gesto. Amizade, ali, não é artigo de vitrine; é alimento que se reparte no silêncio, sombra que acolhe e mão que penteia o vento quando a vida insiste em desarrumar tudo.

Amor e amizade, diz você, são sentimentos do sertão. Concordo: nascem entranhados nos ossos daqueles que ultrapassam barreiras, as de pedra, as do corpo e, sobretudo, as do próprio orgulho. Entram no lugar do outro, atravessam seus medos, e por isso operam com os acontecimentos: não apenas reagem a eles, mas os reenquadra, segurando o assombro para que ninguém precise ser o próprio acontecimento desamparado.

Vivemos tempos em que o ter confunde quem a gente é. Mercado e espelho prometem a mesma imagem: a de um ser invertido que consome a sua própria face. No sertão dessa modernidade, a amizade resiste como antídoto: não mede valor pelo preço das coisas, não se oferece em likes e curtidas. Ela persiste em pequenos gestos, um pão partilhado, uma escuta longa, a lembrança posta à mesa, e assim transforma o ter em ser, trocando inventário por presença.
As redes sociais são nuvens passageiras que anunciam aventuras e depois se vão. Levam consigo promessas de plenitude e deixam só o sopro frio do impossível. Mas a amizade verdadeira não é nuvem: é rio. Começa quase invisível, um fio d’água tímido no sertão, e vai somando correntes, atravessando pedras que, ora sequestram, ora impulsionam. As pedras não são falhas a apagar; são degraus que o rio usa para cantar. E nesse canto, reconhecemos vozes que não se calam.

Há vicissitudes: traições, desencontros, aquele silêncio que pesa como noite sem lua. Mas até a noite do sertão se conforma em revelar estrelas. A amizade que sobrevive às pequenas e grandes tormentas não é imune; é mais, aprende a acolher a falha. Não anula o erro, mas o nomeia sem vergonha, e segue. Porque o verdadeiro afeto não é a negação dos conflitos, e sim a coragem de permanecer quando tudo convida a partir.

No trabalho diário do ser humano, a amizade é ato político e poético. Politicamente porque insiste em colocar o outro em pé de igualdade com a própria necessidade; poeticamente porque devolve sentido ao percurso, transformando o cotidiano em canto. Ela liberta a alma do conformismo do consumo e a reconduz ao sertão das certezas pequenas, das incertezas fecundas, esse lugar onde ainda se aprende a caminhar de novo, sem pressa, escutando o passo do amigo.

E quando o rio chega ao mar, não perde a lembrança das fontes: reconhece nelas a dureza da rocha, o frio do começo, a humildade da origem.

Assim também somos: chegados a alguma margem, levamos dentro as vozes dos que nos acompanharam, os silêncios compartilhados, as risadas que defrontaram a tristeza. A amizade, no fim, é o que nos humaniza, uma coragem antiga, simples como um copo d’água oferecido no calor de um verão escaldante.

Que não nos deixemos calar pela tecnologia que promete voz e entrega esquecimento. Que não permitamos que o mundo nos transforme em mercadorias diante de espelhos grandiosos. No sertão íntimo, onde o amor e a amizade se entrelaçam, as coisas pequenas se revelam essenciais. E, se tivermos sorte, aprenderemos a transformar o ter em ser, passo a passo, rio a rio, até que a vida inteira seja, enfim, um reencontro.

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por Oswaldo Macedo