Reterritorialização, hegemonia e América Latina na crise estrutural do capitalismo
Resumo: Este artigo desenvolve uma interpretação teórico-histórica das práticas hegemônicas contemporâneas na América Latina a partir do que se denomina teoria da lagosta invertida. Ancorado na tradição marxista e na abordagem histórico-mundial do capitalismo, com destaque para as contribuições de Jason W. Moore, Giovanni Arrighi, Antonio Gramsci, Immanuel Wallerstein e Ellen Meiksins Wood, o texto contesta leituras desterritorializadas da globalização. Sustenta-se que momentos de crise estrutural intensificam processos de reterritorialização, nos quais potências hegemônicas recorrem à coerção econômica, jurídica e militar para restaurar circuitos de acumulação interrompidos. A América Latina é analisada como espaço histórico recorrente dessas intervenções, funcionando como zona de reorganização material do poder capitalista global — metaforicamente descrita como o local de “higienização dos dentes do monstro”. Longe de representar uma anomalia, tais intervenções expressam um mecanismo estrutural de estabilização do capitalismo em períodos de crise sistêmica.
Palavras-chave: hegemonia; reterritorialização; marxismo; América Latina; crise global; sistema-mundo.
1. Introdução
Os debates marxistas sobre a globalização têm sido atravessados por uma tensão persistente entre leituras que enfatizam a mobilidade crescente do capital e aquelas que insistem na centralidade do território, da coerção e da organização geopolítica. Nas últimas décadas, parte significativa da literatura passou a descrever o capitalismo contemporâneo como progressivamente desterritorializado, governado por fluxos financeiros, cadeias globais de valor e uma suposta classe capitalista transnacional desvinculada de Estados e lugares específicos.
Contra essa perspectiva, análises histórico-materialistas têm reafirmado que o capitalismo nunca operou fora do espaço, mas sempre através de configurações territoriais concretas, sustentadas por infraestruturas, formas estatais e capacidade coercitiva. É nesse campo crítico que se insere a contribuição de Jason W. Moore, ao demonstrar que a globalização não elimina o território, mas o reorganiza em escalas sucessivas ao longo da longa duração do capitalismo histórico.
Este artigo propõe intervir nesse debate por meio da formulação da teoria da lagosta invertida, uma heurística analítica destinada a compreender como, em momentos de crise estrutural, o poder hegemônico intensifica práticas de reterritorialização em regiões estratégicas. A América Latina, historicamente integrada ao sistema-mundo como espaço de extração, disciplina e experimentação, constitui um caso paradigmático dessa dinâmica.
2. Capitalismo histórico, crise e espaço
Desde Marx, a acumulação capitalista é compreendida como um processo profundamente enraizado em condições materiais específicas. A expansão do capital exige não apenas trabalho explorável, mas também acesso a recursos naturais, energia barata, rotas comerciais e formas políticas capazes de garantir a reprodução das relações sociais.
Arrighi demonstrou que o capitalismo se desenvolve por meio de ciclos sistêmicos de acumulação, cada qual articulado a uma potência hegemônica e a uma determinada configuração territorial. Esses ciclos não se encerram por esgotamento técnico, mas por contradições internas que tornam insustentável a continuidade do padrão anterior de expansão. Em tais momentos, a crise não representa colapso imediato, mas transição conflitiva.
Wallerstein, por sua vez, enfatizou que o sistema-mundo capitalista opera mediante uma divisão espacial hierárquica entre centro, semiperiferia e periferia, na qual a coerção externa sempre desempenhou papel central. A promessa de integração pacífica e consensual raramente se estendeu de forma duradoura às regiões periféricas.
Moore avança esse debate ao integrar espaço, natureza e poder em sua concepção de capitalismo como ecologia-mundo. Para o autor, o capital depende da apropriação contínua de trabalho, energia e matéria a custos reduzidos, processo que é necessariamente territorial. Quando essas condições se deterioram, o capital responde reorganizando violentamente o espaço.
3. A metáfora da lagosta e sua inversão teórica
A metáfora da lagosta tem origem em imagens biológicas e psicanalíticas que descrevem o momento de muda da carapaça como condição para o crescimento, mas também como fase de extrema vulnerabilidade. Em leituras sociológicas e psicológicas, essa imagem foi usada para representar crises de transição, instabilidade e exposição.
Neste artigo, a metáfora é invertida. O foco analítico não recai sobre o sujeito vulnerável, mas sobre o agente hegemônico que se aproveita da vulnerabilidade alheia. A teoria da lagosta invertida descreve a lógica pela qual regiões em crise tornam-se espaços privilegiados para intervenções destinadas a restaurar a funcionalidade do sistema dominante.
A imagem da “higienização dos dentes do monstro” sintetiza esse movimento.
Quando os circuitos de acumulação são obstruídos por políticas soberanas, alianças alternativas ou resistências sociais, o poder hegemônico intervém para remover tais obstáculos, reorganizando o território segundo suas necessidades estruturais.
4. Hegemonia, coerção e os limites do consenso
Gramsci definiu a hegemonia como combinação de liderança intelectual e moral com dominação coercitiva. Embora o consenso seja elemento central da estabilidade política, ele nunca opera isoladamente. A capacidade de coerção permanece como fundamento último da ordem.
No capitalismo contemporâneo, as possibilidades de ampliação do consenso são crescentemente limitadas. Como observou Wallerstein, a incorporação de grandes contingentes da classe trabalhadora global implica custos que ameaçam a lucratividade do sistema. Diante disso, estratégias coercitivas ganham centralidade.
Sanções econômicas, judicialização internacional, bloqueios logísticos e demonstrações de força militar constituem instrumentos de disciplinamento territorial. Eles operam não como exceções, mas como componentes regulares da reprodução hegemônica em contextos de crise.
5. América Latina como espaço estrutural de intervenção
A América Latina ocupa posição singular na geografia histórica do capitalismo. Desde o período colonial, a região foi integrada como fornecedora de recursos naturais, espaço de experimentação institucional e zona de contenção geopolítica.
Essa posição estrutural explica a recorrência das intervenções externas. Em momentos de crise global, a região reaparece como espaço de reancoragem do poder, seja pela reorganização de cadeias energéticas, seja pelo controle de rotas estratégicas.
A pressão sobre setores-chave, como o petróleo, ilustra como a reterritorialização opera na prática. Medidas econômicas e jurídicas não apenas punem governos específicos, mas redesenham quem pode produzir, transportar e comercializar recursos estratégicos.
6. Reterritorialização e o mito do capital sem lugar
A teoria da lagosta invertida confronta diretamente o mito de um capitalismo global sem território. Embora o capital circule em escala planetária, sua reprodução permanece dependente de lugares específicos onde convergem infraestrutura, poder estatal e controle da natureza.
A globalização, portanto, deve ser compreendida de forma dialética: movimentos de expansão espacial são seguidos por fases de consolidação territorial, frequentemente impostas de maneira violenta sobre regiões periféricas.
7. Conclusão
Este artigo argumentou que as intervenções hegemônicas contemporâneas na América Latina devem ser interpretadas como expressões estruturais da crise do capitalismo histórico. A teoria da lagosta invertida oferece uma ferramenta conceitual para compreender como a vulnerabilidade regional é convertida em oportunidade de reterritorialização do poder.
Longe de indicar o fim da política territorial, a atual fase do capitalismo reafirma sua centralidade. A América Latina permanece como espaço estratégico na reorganização material da hegemonia, revelando os limites das leituras desterritorializadas da globalização e a persistência das lógicas imperiais no mundo contemporâneo.
Referências
Arrighi, G. O Longo Século XX.
Gramsci, A. Cadernos do Cárcere.
Moore, J. W. “Capital, território e hegemonia na longa duração”.
Wallerstein, I. O Sistema-Mundo Moderno.
Wood, E. M. A Origem do Capitalismo.
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por Oswaldo Macedo – professor e fotógrafo






















