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sábado 7 março 2026
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Giramundo – A caverna conectada: quando a cultura vira produto e o povo perde a face

Achar que vivemos tempos de intensa democratização cultural é uma piada bem vendida. Se cultura é aquilo que nos dá rosto — linguagem, ritos, lembranças compartilhadas — então o que melhor descreve o Brasil de hoje é uma escultura polida por mãos alheias: vazia por dentro e brilhante por fora. A modernidade digital não substituiu a caverna platônica; apenas a encheu de luzes LED, propagandas segmentadas e algoritmos que a transformaram em shopping.
É preciso dizer isso com clareza sarcástica: a nostalgia virou commodity e a memória — quando não é apropriada — é editada, curada e empacotada para consumo. O discurso público sobre preservação cultural frequentemente é assinado por quem está de terno e com as mãos no caixa. Não é raro ver políticos e empresários defendendo “a cultura” enquanto recolhem as sobras úteis para transformar em espetáculo turístico, em prêmio, em nota fiscal. Essa é a grande hipocrisia: salvar a tradição é, para muitos, apenas uma forma eficiente de monetizá-la.
Nas redes sociais, a coisa ganha contornos ainda mais grotescos. A bolha não só filtra opiniões: ela as massifica. O efeito-manada — antes estudado como fenômeno social — agora opera como tecnologia de engajamento. Likes substituem argumentos, e a performance é confundida com autenticidade. Assim, a identidade cultural deixa de ser algo vivo, plural e contraditório para virar etiqueta: um selo que vale, sobretudo, para quem o vende bem. Quem resiste a essa etiqueta é acusado de retrógrado; quem a abraça, por conveniência ou lucro, recebe aplauso em caixa-alta.
Há um segundo movimento que merece ser denunciado com aspereza: o uso da “identidade” como ferramenta de poder. Defender uma memória pode ser nobre; transformar essa defesa em palanque para domínio e lucro é tirania. Em muitos casos, o que se vende como resgate é um processo de seleção: elimina-se o incômodo, preserva-se o rentável, e cria-se uma tradição com data de validade. O resultado? Uma história com donos, narradores oficiais e inimigos designados — e, claro, um mercado pronto para punir qualquer voz que subverta a versão sancionada.
Literariamente, isso deveria nos chocar. A arte e a cultura nascem do descompasso — do excesso, da contradição, do enraizamento arriscado. Quando esse descompasso é domesticado, a linguagem empobrece; o conto vira folheto; a canção vira trilha sonora de anúncio. Mas não nos enganemos: não é nostalgia saudável que falta, e sim coragem. Coragem de ouvir o velho que não rende like. Coragem de aprender ofícios que não viram notícia. Coragem de fazer obra que não entra em trending topic.
Não proponho um retorno ingênuo ao passado como se ele fosse uma câmara limpa e imaculada. Tradicionalismo acrítico é tão absurdo quanto culturalismo mercadológico. O que proponho — e exijo — é militância por um entendimento da cultura que não se deixe capturar por interesses imediatos. Resgatar identidade é dar solo para inovação, não transformá-la em adereço. É plantar novas sementes à sombra dos velhos carvalhos, não arrancar as raízes porque o vaso é mais “instagramável”.
A metáfora da caverna é útil, e não apenas pedagógica: ela virou diagnóstico. Hoje as sombras vêm em HD e as vozes que as comentam têm equipe de marketing. O perigo não é a imagem projetada; é que aceitarmos a projeção como se fosse o mundo inteiro. A prática do espelho coletivo — onde nos contentamos em ensaiar posturas em vez de viver convicções — nos desfaz como povo. Perdemos corpo quando cedemos o lugar da lembrança a quem a vende melhor; perdemos alma quando confundimos circulação com presença.
Portanto, se há alguma saída, ela começa pelo óbvio e pelo irritante: desconfiar.
Desconfiar de quem transforma memória em produto e de quem promete salvação cultural com contrato de patrocínio. Desconfiar — e também agir: aprender com quem faz, frequentar o que resiste, registrar as vozes que a pressa do mercado quer calar. Revolução cultural não precisa de gritos histéricos; às vezes ela é feita de gestos discretos e orgânicos: sentar-se à mesa com quem ainda conta causos, ensinar um ofício sem cobrar visibilidade, tocar a música sem pensar no algoritmo.
Se não fizermos isso, a caverna continuará a ser condomínio de luxo. Teremos museus cheios de vitrines, festas com programação e memórias “oficiais” — e, ainda assim, seremos um povo sem rosto. Porque plurais não somos apenas por ter diferentes vozes; somos por reconhecer que essas vozes nos pertencem. Sem isso, não há revolução possível, apenas uma reposição contínua de mercadorias que nos convencem de que estamos vivos. E, convenhamos, essa mercadoria está cada vez mais barata.

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por Oswaldo Macedo