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sábado 7 março 2026
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Fé e Razão – Vazio Subjetivo e o sujeito existencial: o sentido do viver

Muitas pessoas estão reduzidas aos escombros das próprias memórias e ao vazio cotidiano. Incapazes de estabelecer e aprofundar relações com o outro e muitas vezes nem consigo mesmo. Cria-se uma indiferença a tudo que o rodeia. Onde o outro é ausente e a pessoa divaga em seus estados emocionais. A busca de gratificações imediatas e a criação de placebos para satisfazer desejos não realizados.

Uma das mais graves ameaças do mundo contemporâneo é a perda do sentido do viver. Paira no ar a séria ameaça de um niilismo não ideológico, mas existencial. Existe em muitas pessoas uma desconfiança no cumprimento do sentido da existência. A sensação sentida por muitos que o ambiente humano interior esta doente e em declínio. Existe um centramento em si próprio que torna sufocante. Uma época de tantos medos coletivos. Esse vazio subjetivo traz a sensação de incompletude da própria identidade gerando desamparo e angústia. Muitas vezes tem tudo , porém sente que algo falta; e na ânsia de resolver a situação procura objetos externos para eliminar o vazio. E ás vezes nada preenche. O indivíduo vai se distanciando do próprio desejo e desenvolvendo estados depressivos e ansiosos.

O vazio subjetivo ás vezes cria egoísmo e narcisismo subterrâneos fruto de uma sociedade atomizada, em que o vínculo com o outro é tão frágil que cria uma dificuldade de aceitar a complexidade inerente da relação humana.
Surge o vazio existencial que procura preenchimento com estímulos momentâneos, porém invés de preencher torna mais profundo o vazio.

A pessoa cai no isolamento humano, afetivo e emocional. Tal situação gera o desencontro e o desconhecimento.
Numa época de tantos selfies que logo caem no esquecimento. O filósofo e ensaísta Walter Benjamin (1892-1940) nos fala da chamada perda da aura que significa que uma imagem deixa de constituir-se numa aparição única de algo distante, fixando-se na sonâmbula repetição.

O vazio subjetivo é um sintoma que deve ser explorado e compreendido, é um chamamento a ousar habitar a vulnerabilidade como um lugar da experiência humana. O vazio subjetivo é uma fragilidade que está sujeito a um ocultamento na nossa sociedade, porém é real.

O vazio subjetivo é um convite para irmos ao encontro do sofrimento humano e aprofundarmos a humanidade da qual somos parte. O vazio subjetivo oferece uma gramática de um problema contemporâneo. É preciso dar significado ao vazio, pois tem um potencial revelador e simbólico. É um lugar existencial, a nossa época vive muitas experiências de crise. Diante do vazio subjetivo, esse vazio do sujeito é preciso encontrar uma metáfora para as turbulências do coração e do psiquismo humano.

Estamos diante de um elemento da espessura da realidade como é o vazio subjetivo que exige uma desconstrução e uma recriação numa nova ordem que lhe dê sentido. O vazio subjetivo revela o que habita o interior de muitas pessoas na atualidade. É preciso reentrar na interioridade e criar espaços de vitalidade. O viver sempre fora de nós mesmos leva a um esgotamento do viver. Não se pode desleixar do essencial. É fundamental buscar o verdadeiro eu.

Fazer a experiência de uma realidade rica e vital que habita em nós. Muitas vezes as pessoas fazem da vida um negócio identificando-a com vender, comprar, lucrar, fazer e com a imagem que temos de nós mesmos e também com as expectativas que os outros tem de nós.

Diante de tal situação é urgente dar espaço ás coisas do espírito, ao nosso autêntico eu, a uma vida verdadeira que habita em nós. É interessante e importante um “ócio” bom no cotidiano para entrarmos em contato conosco mesmo, com uma fonte interior e a verdade que nos habita. Uma dialética entre o vazio e a plenitude. Como disse o filósofo Jean-Luc Marion : “É preciso não confundir o que vemos e o que aparece”.

O vazio subjetivo é a captação de uma fragilidade e de destroços de um ser temporal que exige uma reinvenção. O vazio existencial nos fala de um desejo e sua transformação. É compreender a pessoa desde suas estruturas de consciência e de inconsciente e os processos de transformação, que atua dentro e fora de si mesmo. O vazio existencial nos fala de um sujeito existencial desde o seu ser. Ele deve perceber sua transformação e seus bloqueios.

O vazio subjetivo destrói, porém pode se bem trabalhado construir algo. Esse sujeito existencial precisa reencontrar seu dinamismo interno. A existência subjetiva é um processo de encontro com o fundamento do ser. Uma transformação do self humano e do dinamismo desejante central da consciência. É superar o desejo vazio, que leva a perda relacional, ao sofrimento e ao isolamento. É importante recuperar a identidade, a potencialidade e o valor.

A experiência do vazio subjetivo é um modo de tornar compreensível ao sujeito existencial, a experiência da sua condição criatural na sua impotência para existir desde si mesma. Existe uma dinâmica psicológica implicada no processo intersubjetivo de ter novo acesso a si mesmo (ao self) e uma nova imagem de si mesmo frente aos outros (ego) e ao mundo. Uma potencialidade e não uma carência ou vazio a preencher. O vazio é consequência da perda da identidade que estrutura a consciência de si e consequentemente da imagem de si que lentamente é elaborada com as interações sociais, histórias e intersubjetivas. O vazio subjetivo é um desafio que exige análise e formas apropriadas de lidar com ele.

Prof. Dr. José Pereira da Silva