É importante saber distinguir o essencial daquilo que não é, a banalidade daquilo que é importante de verdade. É um trabalho cotidiano para se evitar cair na mediocridade e o perigo de nela encontrar um sentido ou valor. Saber selecionar o que realmente é importante.
Não condiciona a vida a uma felicidade fácil e propagandística, como dizia Bernard Shaw: “que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente”.
É trabalhar e ter discernimento entre um amor ilusório à vida, que nos leva a adiá-la, e o amor real a vida, que mesmo com seus percalços assumimos. Amar e viver a vida de forma hipotética a partir do que dela esperamos ou assumirmos a vida incondicionalmente pelo que ela é. É assumir muitas vezes uma “impotência” e fragilidade.
Muitas vezes a posição subjetiva das pessoas a levam a aderirem a uma fantasia social referente a certos valores e ideais que não as levam a uma vida mais humana e significativa.
Fundamental assumir com responsabilidade a singularidade dos caminhos trilhados, como dizia Jacques Lacan: “Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis”(Lacan, Ciência e Verdade).
Devemos nos questionar sobre quais valores devemos alicerçar a nossa vida. A ambição, a soberba, a ganância, a arrogância, as apostas interesseiras, a obsessão por honrarias não parecem ser um bom alicerce para a vida, são bases frágeis.
Os valores que alicerçam nossa vida são aqueles que nos humanizam, os que reforçam nossa dignidade, os que dão profundidade à vida, os que abram perspectivas de uma vida mais plena. Rejeitar a soberba e escolher a humildade.
O mundo é altamente competitivo e a competitividade é fator de progresso e desenvolvimento, porém pode ter também efeitos perversos. Corre-se o perigo de ver o outro como ameaça, é o querer triunfar a qualquer custo. Pois isso não significa construir uma vida com sentido positivo.
O desafio é construir uma vida com sentido e dignidade. A vida deve ser construída com uma outra lógica. Deve dar a capacidade de ver outro como ser humano e respeitá-lo. Isso talvez seja mais importante que as glórias e triunfos humanos. É ajudar a tornar o mundo um lugar mais humano. É abrir espaço para o crescimento humano e pessoal. Voltar-se ao essencial da vida e para tudo aquilo que a humaniza e a dignifica.
Construir uma vida com sentido implica também uma relação da pessoa com seus desejos, projetos, traumas, frustações e toda a dinâmica de sua vida. Como se lida com a própria experiência de vida. O sentido é algo sempre dinâmico e que permite experienciar o mundo . Um interagir com a realidade pessoal e do outro.
É uma construção dinâmica como a própria vida e que permite cada pessoa encontrar um caminho pessoal singular, uma existência autêntica. Criar uma via singular em meio aos desejos e ilusões coletivas. A sociedade cria muitas fantasias sociais presentes nos slogans e propagandas.
Exige uma resposta consciente que tenha como ponto de partida a consciência das necessidades reais que se conjuguem com o sentido da existência. Quem ou o que tu procuras? É preciso redimensionar o delírio humano de onipotência. Redescobrirmo-nos inseguros, frágeis e inconsistentes, ou seja, tomar contato com nossos limites. É necessário aprender a conversar com o ”vazio” e a partir dele criar novos sentidos para a vida. Lacunas devem ser assumidas, evitando o ”tapa buracos”, é aprender a habitar a incompletude e partir dela abrir perspectivas e espaços para os “possíveis” da vida. Escutar as “incompletudes” para abrir novos caminhos existenciais.
É estarmos abetos à busca. Sem uma clareza do sentido da vida, em certos momentos, viríamos às apalpadelas na confusão. Quando a pessoa reconhece, desenvolve e harmoniza os aspectos de sua vida vai paulatinamente construindo uma identidade clara. Essa integração formando uma personalidade capaz de orientar a existência e dando sentido à vida. Um acertar as constas com a nossa individuação. Uma experiência das fronteiras da vida muitas vezes estilhaçadas.
Convocados a entrar em contato com a profundidade da nossa vida que nos ajuda no crescimento pessoal. O sentido, em geral, tem uma caráter permanente. O sentido não é superficial, vai ao fundo da vida, de todos os aspectos da vida. A sabedoria clássica dá prioridade ao sentido. Geralmente tudo que tem sentido vale a pena, mesmo quando falta o prazer.
Quantas pessoas na sociedade tem acesso aos prazeres mais sofisticados, e mesmo assim não encontra a felicidade ou um sentido?
Uma sociedade que tem abundantes ofertas de prazer e carece de ofertas de sentido. Geralmente o ideal de realização e felicidade é o mesmo que rege o mundo do consumo. Quando a vida das pessoas está vazia ou falha de sentido, buscam desesperadamente meios de preencher os vazios de sentido à base do prazer. Abundante quase sempre em prazer e deficiente em sentido, abundante em técnica e escassa em ética. Já dizia o neuropsiquiatra Viktor Frankl (1905-1997) : “ O problema fundamental das pessoas não é a falta de prazer, mas a falta de sentido. Sem prazer pode viver-se; sem sentido só resta como saída o suicídio”. Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração afirmou: “Dos que pudemos sobreviver, só sobrevivemos aqueles que encontrámos sentido para o sofrimento”. É sempre necessário regozijar-se com a beleza da existência, da vida autêntica e de seu sentido. Nutrir a vida com sentido!
Prof. José Pereira da Silva






















